quinta-feira, 9 de julho de 2026

Agora, ó nosso Deus, que diremos depois disto?

 


Gostaria de propor uma relação intertextual entre dois personagens da literatura. 

O primeiro é José, da autoria de Carlos Drummond de Andrade. 

José

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?

e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio — e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

Publicado em 1942, José apresenta o quadro de quem está em um beco sem saída. Seja pela voz  de uma terceira pessoa ou pela voz do próprio José, o quadro é estarrecedor. As metáforas (cito algumas) - a festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou; está sem mulher, está sem discurso; o bonde não veio, o riso não veio; com a chave na mão, quer abrir a porta, não existe porta - apontam para as diversas oportunidades e vivências possíveis a qualquer pessoa; entretanto, impossíveis a José, outra metáfora. 

A estrutura condicional (conjunção condicional se e verbos no pretérito imperfeito do subjuntivo) dos versos da penúltima estrofe, José é desafiado a reagir - se você gritasse, se você gemesse, se você dormisse, se você morresse... - mas ele não morre, ele é duro. Em suma, José está encurralado.

Por fim, o poeta apresenta José (ou qualquer um de nós) completamente perdido e desorientado, sem qualquer tipo de companhia, sem qualquer apoio espiritual (sem teogonia - doutrina mística sobre o nascimento dos deuses) ou material. Com todo o quadro caótico apresentado no poema, José continua em marcha, isto é, continua sua luta a despeito de tudo e de todos. Ainda que completamente perdido.

O segundo personagem é Secanias, filho de Jeiel, um dos filhos de Elão, registrado no livro de Esdras. 

Esdras 9: 7 a 15 (ARA)

⁷ Desde os dias de nossos pais até hoje, estamos em grande culpa e, por causa das nossas iniquidades, fomos entregues, nós, os nossos reis e os nossos sacerdotes, nas mãos dos reis de outras terras e sujeitos à espada, ao cativeiro, ao roubo e à ignomínia, como hoje se vê.

⁸ Agora, por breve momento, se nos manifestou a graça da parte do Senhor, nosso Deus, para nos deixar alguns que escapem e para dar-nos estabilidade no seu santo lugar; para nos alumiar os olhos, ó Deus nosso, e para nos dar um pouco de vida na nossa servidão;

⁹ porque somos servos, porém, na nossa servidão, não nos desamparou o nosso Deus; antes, estendeu sobre nós a sua misericórdia, e achamos favor perante os reis da Pérsia, para nos reviver, para levantar a casa do nosso Deus, para restaurar as suas ruínas e para que nos desse um muro de segurança em Judá e em Jerusalém.

¹⁰ Agora, ó nosso Deus, que diremos depois disto? Pois deixamos os teus mandamentos,

¹¹ que ordenaste por intermédio dos teus servos, os profetas, dizendo: A terra em que entrais para a possuir é terra imunda pela imundícia dos seus povos, pelas abominações com que, na sua corrupção, a encheram de uma extremidade à outra.

¹² Por isso, não dareis as vossas filhas a seus filhos, e suas filhas não tomareis para os vossos filhos, e jamais procurareis a paz e o bem desses povos; para que sejais fortes, e comais o melhor da terra, e a deixeis por herança a vossos filhos, para sempre.

¹³ Depois de tudo o que nos tem sucedido por causa das nossas más obras e da nossa grande culpa, e vendo ainda que tu, ó nosso Deus, nos tens castigado menos do que merecem as nossas iniquidades e ainda nos deste este restante que escapou,

¹⁴ tornaremos a violar os teus mandamentos e a aparentar-nos com os povos destas abominações? Não te indignarias tu, assim, contra nós, até de todo nos consumires, até não haver restante nem alguém que escapasse?

¹⁵ Ah! Senhor, Deus de Israel, justo és, pois somos os restantes que escaparam, como hoje se vê. Eis que estamos diante de ti na nossa culpa, porque ninguém há que possa estar na tua presença por causa disto.

Esdras 10: 1 a 4 (ARA)

¹ Enquanto Esdras orava e fazia confissão, chorando prostrado diante da Casa de Deus, ajuntou-se a ele de Israel mui grande congregação de homens, de mulheres e de crianças; pois o povo chorava com grande choro.

² Então, Secanias, filho de Jeiel, um dos filhos de Elão, tomou a palavra e disse a Esdras: Nós temos transgredido contra o nosso Deus, casando com mulheres estrangeiras, dos povos de outras terras, mas, no tocante a isto, ainda há esperança para Israel.

³ Agora, pois, façamos aliança com o nosso Deus, de que despediremos todas as mulheres e os seus filhos, segundo o conselho do Senhor e o dos que tremem ao mandado do nosso Deus; e faça-se segundo a Lei.

⁴ Levanta-te, pois esta coisa é de tua incumbência, e nós seremos contigo; sê forte e age.

No trecho referente ao nono capítulo, Esdras revela sua atonitez ao constatar que os recém-libertos do cativeiro babilônico continuam na prática dos mesmos pecados que os haviam levado, anteriormente, ao mesmo cativeiro. 

Agora, ó nosso Deus, que diremos depois disto?  O questionamento de Esdras a Deus expõe toda a natureza carnal e pecaminosa do ser humano. Os judeus não aprenderam com o cativeiro, assim como nós não aprendemos com nossos erros apesar das inúmeras manifestações de perdão e de misericórdia da parte de Deus.

Tanto José como Esdras vivenciaram momentos em que a solução era inexistente. Enquanto José não sabia o que fazer embora não estivesse de braços cruzados a esperar pelo pior, Esdras estava compungido em função da vergonha causada pelos pecados da nação judaica pós-exílio. Ambos estavam cientes do caos; ambos não visualizavam uma saída. No segundo caso, entretanto, Secanias apresentou a Esdras a solução para o caos espiritual: dissolução dos casamentos mistos. 

Um plano foi traçado. Secanias apresentou a saída a Esdras mas cabia-lhe agir. Por fim, todos os que voltaram do exílio se comprometeram a se desfazer das suas mulheres estrangeiras e filhos gerados naquele contexto.

E agora, José? Agora, ó nosso Deus, que diremos depois disto? Dois questionamentos semanticamente equivalentes com diferentes desdobramentos. O ideal é que sempre estejamos conectados com Cristo para que as diversas saídas para os diferentes dilemas sempre estejam prontas a serem utilizadas. Pena que, na imensa maioria das vezes, agimos como José seguindo sem saber para onde sem ter um Secanias por perto.

Afinal, com Cristo no barco tudo vai muito bem, e passa o temporal

José tinha Cristo no seu barco?

Fernando Fernandes


 


quinta-feira, 2 de julho de 2026

Céu na terra ou terra no céu?










Minha casa 
Eyshila - 2005
 
Minha casa será uma casa de bênção
Minha casa será um pedaço do céu
Nela estarão reunidos adoradores
Que só exaltam ao Deus verdadeiro e fiel

Minha casa será reconhecida
Como um lugar de milagre e oração
Onde Jesus tem prazer em ficar
Onde o Espírito Santo habita
Onde há prosperidade, amor e vida

        Faça do meu lar, senhor
        Um lugar de harmonia
        Faça do meu coração
        Tua casa todo dia
        Esteja à vontade pra ficar
        E nunca mais partir
        Pois a casa que um dia te recebeu
        Nunca mais saberá viver sem ti

Minha casa será reconhecida
Como um lugar de milagre e oração
Onde Jesus tem prazer em ficar
Onde o Espírito Santo habita
Onde há prosperidade, amor e vida

Faça do meu lar, senhor
Um lugar de harmonia
Faça do meu coração
Tua casa todo dia
Esteja à vontade pra ficar
E nunca mais partir
Pois a casa que um dia te recebeu
Nunca mais saberá viver sem ti, Jesus
Pois a casa que um dia te recebeu
Nunca mais saberá viver sem ti

Em visita a uma igreja próxima da minha residência, dias depois de um encontro de casais promovido pela igreja onde congrego, a canção Minha casa foi entoada entre outros cânticos voltados para a família.

No cântico em primeira pessoa, a voz poética expressa inúmeros projetos para sua casa, seu lar. Para que tais planos se tornem reais, uma oração é feita a Deus nesse sentido. Entre outros projetos para seu lar, o eu lírico deseja que seu lar seja o lugar onde Jesus tenha prazer em ficar e onde o Espírito Santo venha a habitar.

Que características deve ter um lar onde Jesus tenha prazer em ficar e onde o Espírito Santo venha a habitar? A oração feita pelo eu lírico no estribilho (último conjunto de versos) fornece essas respostas.

O coração deve ser esse lar onde Cristo habita. Quando Cristo deu a sua vida na cruz por nós, ele exclamou "Deus meu, Deus, por que me abandonaste!" porque, naquele instante, houve a separação entre Pai e Filho em função dos pecados de toda a humanidade sobre seus ombros. Portanto, para que Cristo habite no coração de alguém, é mister que esse coração seja tão puro quanto o coração de uma criança.

Entretanto, não basta que Cristo habite nesse lar. É necessário que ele também se sinta à vontade. Isso só acontece quando esse hóspede é acolhido, abraçado e respeitado. Nesse contexto, julgamentos,  contestações e desrespeito só geram constrangimentos. Logo, só é possível a Cristo se sentir à vontade em um lar quando cada um nesse lar, realmente, entender quem Cristo é, seu ponto de vista sobre a vida, sobre o comportamento humano e sobre as relações familiares.

A consequência prática de termos Jesus a habitar de forma à vontade nesse lar significa que haverá  harmonia. No sentido pretendido pela canção, a harmonia  é entendida como a vivência dos preceitos bíblicos entre irmãos. O fruto do Espírito é, nesse contexto o grande balizador da tolerância entre os que vivem nesse lar. Dessa forma, o amor, a alegria, a paz, a longanimidade, a benignidade, a bondade, a fidelidade, a mansidão e o domínio próprio devem ser uma prática dentro do lar.

Para que o lar seja o lugar onde Jesus tenha prazer em ficar e onde o Espírito Santo venha a habitar, é imprescindível que, a partir da habitação de Cristo no coração, ele possa se sentir à vontade e, como consequência prática, a harmonia dentro do lar será uma constante.

Em havendo quaisquer deslizes que venham a impedir a presença de Cristo no lar, a confissão, o arrependimento, a oração e a reconciliação devem ser o antídoto. Caso contrário, o lar será, apenas, um amontoado de pessoas que partilham do mesmo teto e, eventualmente, dividem despesas.

Fernando Fernandes






quinta-feira, 25 de junho de 2026

Caminhos





Na leitura de hoje, conversaremos sobre algumas figuras de linguagem tendo como base o primeiro capítulo do livro dos Salmos. Seu título é: Os justos e os ímpios.

Salmos 1: 1 ao 6 (ARA)

¹ Bem-aventurado o homem que não anda no conselho dos ímpios, não se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores.

² Antes, o seu prazer está na lei do Senhor, e na sua lei medita de dia e de noite.

³ Ele é como árvore plantada junto a corrente de águas, que, no devido tempo, dá o seu fruto, e cuja folhagem não murcha; e tudo quanto ele faz será bem-sucedido.

⁴ Os ímpios não são assim; são, porém, como a palha que o vento dispersa.

⁵ Por isso, os perversos não prevalecerão no juízo, nem os pecadores, na congregação dos justos.

⁶ Pois o Senhor conhece o caminho dos justos, mas o caminho dos ímpios perecerá.

Uma grande antítese permeia todo o poema ao trazer duas escolhas possíveis ao ser humano. Uma em relação ao caminho da justiça e outra em relação ao caminho da  impiedade. 

Para traçar as características inerentes ao justo e ao ímpio, o salmista abre o poema por meio de uma gradação por meio dos verbos andar, deter e assentar-se para demonstrar as diferenças na intensidade da nossa reação frente ao pecado. No contexto, a observância das ações dos ímpios se dá enquanto o justo apenas anda por ali. A situação ficaria mais séria caso esse justo se detivesse, isto é, se ele interrompesse sua caminhada e parasse para os observar. Para piorar de vez, mais do que andar e parar, se ele se assentasse ou passasse a fazer parte daquele contexto. Os comportamentos pecaminosos expressos por conselho dos ímpios, caminho dos pecadores e roda dos escarnecedores são sinônimas e exemplificam o pleonasmo, quando usamos palavras diferentes para expressar uma mesma ideia.

Na sequência, o salmista apresenta o prazer do justo por meio de uma hipérbole e de uma antítese, ambas ao mesmo tempo. Meditar na lei do Senhor de dia e de noite é exagero retórico no sentido de que nossos pensamentos e ações são múltiplos embora o salmista se esforce para priorizar as coisas celestiais. A escolha dos antônimos dia e noite possui também caráter retórico. 

Uma nova característica do justo é apresentada por meio da metáfora de uma árvore plantada junto a corrente de águas. Nós não somos árvore, diria uma criança. Entretanto, se estivermos plantados em Cristo, daremos o fruto do Espírito. Em contraponto à fertilidade do justo, os ímpios são apresentados como a palha que o vento dispersa. A metáfora traz a ideia de insipiência, fragilidade e impotência da palha frente ao vento que a dispersa. Dessa forma, é impossível ao ímpio conviver com o justo, seja no plano terreno ou celestial. Árvore e palha apresentam significações opostas, o que também exemplifica a figura antítese.

Por fim, o salmista retoma a antítese principal para revelar a quem Deus conhece o caminho e onde chegar. O recado do salmista é bem simples e direto. Como a imagem que abre essa leitura, temos de decidir entre dois caminhos.

Que caminho você escolheu? Eu já tenho o meu.

Fernando Fernandes




quinta-feira, 18 de junho de 2026

Que encontro!

 


Em conversa com minha esposa no dia de ontem, dia dos namorados, lembrei-me de uma história de amor para lá de especial. 

No vigésimo nono capítulo do livro de Gênesis, o narrador apresenta o encontro, a paixão, o amor e a união entre Jacó e Raquel. Por mais que os casamentos fossem arranjados naquele contexto, Jacó respondeu ao seu tio Labão que o serviria por sete anos e, em troca, teria Raquel por esposa pelo simples fato de Jacó a amar.

Quem me lê e já se casou, sabe o que quero dizer. O tempo psicológico se difere do tempo cronológico exatamente nesse contexto. Algo que ansiamos faz com que o tempo fique congelado; ao mesmo tempo, vivências prazerosas fazem que anos pareçam dias. 

Imagine a ansiedade de Jacó em ter Raquel nos braços após 2.555 dias de serviço! Cada dia deve ter sido extremamente longo. Cada um mais duro do que o outro. Imagine, agora, a última hora do expediente do último dia de serviço e a certeza de que Raquel seria sua no dia seguinte. Foram dias na esperança de um só dia

A festa de casamento aconteceu e Jacó, finalmente, com a amada nos braços. Entretanto, questões culturais sabotaram seu carpe diem. No dia seguinte, após a lua de mel, Jacó se deu conta de que ele vivera aquela noite de amor com a irmã da noiva, Lia. Ao questionar seu sogro, um detalhe foi apresentado a ele: as filhas mais velhas se casam antes das filhas mais novas. Afinal, o  pai, usando de cautela, em lugar de Raquel lhe deu a Lia.

Labão, seu tio materno e sogro, propôs mais sete anos de serviço para que Raquel lhe fosse entregue. Jacó concordou. A vontade de ter Raquel nos braços e todo aquele tempo extra de trabalho e ansiedade foram mais fortes do que a rasteira que tomara do tio. Na verdade,  Jacó não servia ao tio, servia a ela.

Mais sete anos se foram.  Após quatorze anos, Jacó teve Raquel nos braços. 

Luís Vaz de Camões (1525-1580) escreveu um soneto para ressaltar esse belo amor de Jacó por Raquel. Se o texto bíblico deixa nas entrelinhas esse sentimento - uma declaração de amor e serviço pelo do dobro do tempo inicialmente combinado - o poema o exalta nos seus quatorze versos decassílabos distribuídos em dois quartetos e dois tercetos e nas rimas alternadas. 

Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prêmio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe deu a Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Assim lhe era negada a sua pastora,
Como se não a tivera merecida;

Começou a servir outros sete anos,
Dizendo: Mais servira, se não fora,
Para tão longo amor, tão curta a vida.



Por que Jacó aceitou ser passado para traz por seu tio em relação a Raquel? De forma mais simples, Jacó reconheceu que seu sentimento por Raquel era tão grande que valeria a pena servir ao pai por ela por mais sete anos, por mais setenta anos, por mais setenta vezes sete anos. Por outras letras, mais servira, se não fora, para tão longo amor, tão curta a vida

Que a postura de Jacó, apesar de toda a sua fragilidade de caráter, sirva de inspiração para que possamos lutar pelo que ansiamos. 

Fernando Fernandes

quinta-feira, 11 de junho de 2026

As margens ou às margens?











 

Apesar de exemplos de margens de rodovia e placas orientadoras da autoria do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes, nosso bate-papo de hoje girará em torno dos dois primeiros versos do Hino Nacional Brasileiro, conforme registrado no site oficial do Planalto.

 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/hino.htm

Ouviram do Ipiranga as margens plácidas 
de um povo heróico o brado retumbante,
E o sol da liberdade, em raios fúlgidos,
Brilhou no céu da pátria nesse instante.


O questionamento é: nos dois primeiros versos do Hino, qual é o sujeito? Sim, o sujeito das aulas de Língua Portuguesa. Pense um pouco, chegue a uma conclusão. Só depois, continue a leitura.

Se a resposta foi as margens plácidas do Ipiranga, sendo margens o núcleo, você acertou.

Explicando...

Ouviram do Ipiranga as margens plácidas de um povo heróico o brado retumbante

em ordem direta (sujeito, verbo, complemento), temos:

As margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heróico.



Se a expressão as margens fosse grafada às margens (com acento grave), a pergunta seria a mesma: nos dois primeiros versos do Hino, qual seria o sujeito? Pense e responda. Só depois, continue a leitura.

Se a resposta foi sujeito indeterminado, você acertou.

Explicando...

Ouviram do Ipiranga às margens plácidas de um povo heróico o brado retumbante

em ordem direta (sujeito, verbo, complemento), temos:

Ouviram o brado retumbante de um povo heróico às margens plácidas do Ipiranga



Se preferir, temos também a opção com o adjunto adverbial de lugar deslocado com o uso da vírgula:

Ás margens plácidas do Ipiranga,  ouviram o brado retumbante de um povo heróico






Nesse caso específico dos dois primeiros versos do Hino Nacional, o uso ou não do acento grave foi determinado pelo autor da letra em função da mensagem pretendida. Joaquim Osório Duque Estrada quis que as margens se comportassem como seres vivos (prosopopeia), que elas estivessem presentes  e que fossem testemunhas auditivas da história. Portanto, as margens ouviram o brado retumbante de um povo heróico.

Com o emprego do acento grave em às margens, o significado desses versos é outro. As margens não ouviram nada. Apenas foi o local onde se ouviu o brado retumbante. Quem ouviu, verdadeiramente? Não é possível determinar. Mas o brado foi ouvido.

A mesma situação acontece com as placas do DNIT em relação às margens da rodovia. A intenção do Departamento é normatizar a construção de edificações às margens das rodovias federais. Por isso, a redação correta é: Antes de construir às margens da rodovia, consulte o DNIT. Se o acento grave é retirado, a significação muda completamente. É como se o órgão normatizasse a criação de margens, construção de margens nas rodovias. Não é o caso. Rodovias possuem margens, mesmo que não urbanizadas, digamos assim. 

Para fechar o raciocínio, o sentido pretendido pelo enunciado determinará o emprego ou não do acento grave nas duas situações apresentadas. Entretanto, sua regra básica continua em vigor. O acento grave (`) indica a fusão da preposição a com o artigo definido a. Isto é: a + a = à.



Fernando Fernandes

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Quanta libra já pesou.



Se você não conhece o significado da expressão que dá título a essa publicação, então você é a pessoa apropriada para excursionar na história que será apresentada.

HINO DO FLAMENGO
Lamartine Babo
 
Uma vez Flamengo, sempre Flamengo
Flamengo sempre eu hei de ser
É meu maior prazer vê-lo brilhar
Seja na terra, seja no mar
Vencer, vencer, vencer!
Uma vez Flamengo, Flamengo até morrer!

Na regata, ele me mata
Me maltrata, me arrebata
Que emoção no coração!
Consagrado no gramado
Sempre amado, o mais cotado
Nos Fla-Flus é o Ai, Jesus!

Eu teria um desgosto profundo
Se faltasse o Flamengo no mundo
Ele vibra, ele é fibra
Muita libra já pesou
Flamengo até morrer eu sou! 


Sobre o Flamengo, o hino mais conhecido e apresentado acima não é o hino oficial. Este (Flamengo, Flamengo, tua glória é lutar / Flamengo, Flamengo, campeão de terra e mar ... ) é, sim,  o hino oficial, tendo sua letra e música composta pelo ex-goleiro rubro-negro Paulo Magalhães e entoado pela primeira vez em 1920.

Já aquele, o hino mais conhecido e objeto do nossa pequena reflexão, possui relação estreita com o carnaval de 1945, pois tinha sido uma marchinha composta por Lamartine Babo. Sobre esse letrista, ele também compôs várias outras marchinhas ligadas ao futebol. Entre outros, o hino do Vasco da Gama (Vamos todos cantar de coração...), o hino do Fluminense (Sou tricolor de coração,...) o hino do Botafogo (Botafogo, Botafogo, campeão desde 1910...).

Considerando o vocabulário e a mensagem em si, o teor da canção em análise se aproxima muito do Romantismo, escola literária que predominou na Europa na primeira metade do século XIX.  A exaltação de valores de uma determinada instituição e a profissão de fé de quem faz a exaltação são os seus principais traços literários. O eu lírico exalta os valores do clube ao afirmar sobre o brilho nas diversas competições terrestres e aquáticas; e expressa sua fidelidade ao clube até morrer. 

Como gênero literário, poemas recitados ou cantados que exaltam algo, alguém ou uma instituição são denominados de hino. Se a canção exaltasse os valores bucólicos ou valores ligados à natureza, teríamos uma écloga; se a canção exaltasse a perda e a melancolia, teríamos uma elegia.

Em relação aos recursos semânticos, temos as seguintes figuras de linguagem:

Antitese - na primeira estrofe, ao afirmar que que seu clube brilha seja na terra, seja no mar. Seja nos esportes terrestres, seja nos esportes náuticos, o clube lhe proporciona orgulho.

Hipérbole - no final da primeira estrofe, quando o eu lírico afirma 'Uma vez Flamengo, Flamengo até morrer' no sentido de ele continuará a admirar o clube, independente dos resultados obtidos nas diversas competições. 

Paronomásia, aliteração e assonância - Na segunda estrofe, há o uso intenso de palavras semanticamente independentes entre si com grande semelhança sonora e gráfica como em regata, mata, arrebata e maltrata; emoção e coração; consagrado, gramado, amado, cotado; Fla-Flus, Jesus. Nesse caso fica difícil separar a paronomásia (palavras independentes com grafia semelhante - falar e falhar) da aliteração (repetição de fonema consonantal - o rato roeu a roupa do rei de Roma) e da assonância (repetição de fonemas vocálicos - as rimas em geral). Da mesma forma, a terceira estrofe apresenta essa situação em ele vibra, ele é fibra, muita libra já pesou. Em todos os casos, o compositor consegue trazer uma mesma semelhança gráfica e sonora nessas palavras de diferentes classes gramaticais. Na primeira ocorrência, regata é substantivo, as demais são verbos da primeira conjugação flexionados na terceira pessoa do presente do indicativo. Nas demais ocorrências, deixo para você essa mini pesquisa morfológica,

Em relação ao título desta publicação, temos o seguinte. No penúltimo verso da canção, Muita libra já pesou, a palavra libra é relacionada a uma unidade de medida em que os barcos do remo eram pesados antes e depois de uma competição para que se garantisse a lisura ao longo do processo. Nesse sentido, o verso também afirma que o clube já competiu inúmeras vezes (e ganhou também) nos esportes náuticos. 

A escolha pelo hino do Flamengo para a proposição de um bate-papo literário não se deu por devoção ao clube, mas sim pela enorme torcida que o admira e a riqueza literária da canção que o exalta. Nesse sentido, é uma homenagem.

Fernando Fernandes







sábado, 30 de maio de 2026

Nem tudo que parece, é


Se você gostava das aulas de gramática, há de se lembrar dos verbos de ligação.

Essa categoria de verbo, diferente de outros verbos que expressam ações, ele se comporta como uma ponte entre algo/alguém e o que se sabe desse algo/alguém. Daí a denominação verbo de ligação.

Os verbos de ligação mais usados no nosso dia a dia são: ser, estar, ficar, permanecer, tornar-se, continuar e virar. Na prática, temos a seguinte significação de cada um desses verbos.

                                Ser - estado permanente;
                                Estar - estado transitório;
                                Ficar - mudança de estado;
                                Permanecer - continuidade;
                                Tornar-se - transformação;
                                Continuar - estabilidade em relação a algo
                                Virar - mudança de estado.

O primeiro versículo do vigésimo terceiro capítulo do livro dos Salmos traz um extraordinário exemplo da estrutura sintática sujeito / verbo de ligação / predicativo do sujeito, como demonstrado abaixo.

O Senhor é o meu pastor; nada me faltará. (Salmos 23: 1 -  ARA)

                                O Senhor - sujeito
                                é - verbo de ligação
                                o meu pastor - predicativo do sujeito

Quando afirmo que esse versículo é um exemplo extraordinário da estrutura sintática em pauta não é, verdadeiramente, pelo estudo gramatical em si. Mas sim pelo valor teológico que a afirmação revela. Quando Davi afirma "O Senhor é o meu pastor", o verbo ser traz a ideia exata do estado imanente, sem sombra de possibilidade de oscilação, variação e perda de qualidade em relação ao atributo dado ao Senhor, representado pela metáfora bom pastor. As ações descritas pelo bom pastor por Davi são descritas ao longo do capítulo. Se outro verbo de ligação substituísse a forma verbal é no versículo, com certeza, esse bom pastor falharia em algum momento com a ovelha que expressa sua dependência. 

Na relação agrícola, as ovelhas recebem exatamente do que precisam de seu pastor e não o que elas desejam. Ovelhas precisam de água limpa e de pasto fresco; precisam ser resgatadas por meio da vara (parte curva) bem como precisam ser protegidas dos predadores (parte reta da vara); precisam ser tosquiadas; precisam estar abrigadas etc. Portanto, se o Senhor de Davi é o seu pastor, esse pastor é infalível porque nada faltará a ele. Como dito acima, a metáfora agrícola para bom pastor se relaciona ao Pastor que nos guia, alimenta, cuida e protege.

E a revisão gramatical da segunda oração do versículo? Isso ficará para outra oportunidade.

O Senhor é o meu pastor; nada me faltará. Versículo simples de memorizar, gramática fácil de explanar, relação metafórica compreensível,  convicção difícil de viver. 


Fernando Fernandes






quarta-feira, 20 de maio de 2026

Um lugar de poesia e não um lugar para poesia II





Quinze anos se passaram quando estive aqui pela primeira vez a convite do nosso anfitrião. Naquela oportunidade, pude registrar minhas impressões sobre aquela experiência para lá de especial, conforme o endereço eletrônico abaixo cujo título é Um lugar de poesia e um lugar para poesia. 

https://pherrocha.blogspot.com/p/um-lugar-de-poesia-e-nao-um-lugar-para.html?m=1

Pois é. Quinze anos se foram. Mas algo se fez diferente dessa vez, ainda que o local continue a ser um lugar de poesia e não um lugar para poesia.

Óbvio que o Recanto dos... sofreu atualizações de ordem paisagística, arquitetônica, tecnológica e humana nesse tempo. Árvores se desenvolveram ou foram sacrificadas por algum motivo; edificações foram criadas, ampliadas, reformadas ou extintas; equipamentos foram atualizados, acrescentados, suprimidos ou substituídos; jovens amadureceram; crianças adolesceram; novos rebentos chegaram a aquele paraíso em forma de chácara.

Mas havia algo diferente. Muito diferente. Nosso eterno pai não estava entre nós para coroar aquela - e sua - comemoração natalícia, como em anos anteriores. Dias antes, aprouve ao Pai dar-lhe um novo Recanto dos... para administrar.

Para externar minha saudade, escolhi a foto que abre essa homenagem. Certamente nosso eterno amigo usufruiu momentos de alegria naquele oásis. E foi naquele refúgio que ele, bondosamente, permitiu-me folgar aquela manhã junto aos meus dois netos.

Na prática, aquele sábado transcorreu como se nosso eterno acolhedor estivesse presente. Degustamos do tradicional caldo-de-cana com pastel, saboreamos um estupendo churrasco e prestamos um culto de agradecimento a Deus pela vida daquele que sempre nos adotou ao longo dos anos naquele Recanto.

Com a devida licença poética e teológica, se eu pudesse, abraçaria a linha de pensamento de Carlos Drummond de Andrade registrada em um de seus poemas ao questionar o porquê de perdemos nossas mães, conforme lavrado no poema Para Sempre:

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.

Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
– mistério profundo –
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.


Se você pudesse, seguiria a mesma proposta de  Drummond  em relação ao nosso  anfitrião, eterno pai, eterno amigo e eterno acolhedor?


Fernando Fernandes


 






terça-feira, 19 de maio de 2026

Dá-me... ou me dá...?







Na publicação de hoje, gostaria de partilhar com vocês algumas considerações sobre o conceito de erro dentro do campo da gramática normativa. Para tal, consideraremos dois textos: uma situação hipotética em um julgamento e o poema Pronominais, da autoria de Oswald de Andrade. 



Texto 1
Considere a situação hipotética em uma audiência que envolva juiz, advogados e as partes envolvidas em um processo.  Por fim, o magistrado, lê sua sentença da seguinte forma:

  ". . . o réu deveria agir com menas precipitação nesse caso. 
Mesmo assim, decido pela sua absolvição. Se cuide. 
Audiência encerrada."

Texto 2
Poema pronominais (1925)
Oswald de Andrade

Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro.

Há erros que estigmatizam o usuário da língua. No primeiro exemplo, há duas transgressões à norma culta. Você há de concordar que a primeira ocorrência - menas - é menos aceitável do que a segunda ocorrência - Se cuide -.  No primeiro evento, é mais difícil tolerar alguém com instrução superior troque o menos por menas. Por outro lado, haveria maior tolerância caso esse deslize ocorresse dentro de um grupo com pouca instrução acadêmica. 

Por outro lado, há erros que são tão naturais que não estigmatizam, não discriminam o usuário da língua. Pensemos no caso da próclise em início de enunciados. A preferência pelos brasileiros pelo uso da próclise é tão óbvia que Oswald de Andrade, em seu poema Pronominais, abordava esse choque entre o que se usa (me dá um cigarro - as falas do bom negro e do bom branco da nação brasileira) e o que é prescrito pela gramática normativa (dê-me um cigarro - fala do professor, do aluno e do mulato sabido - que tinham acesso ao estudo). No nosso estudo de caso, a oração Se cuide foi iniciada com pronome oblíquo. A gramática, definitivamente, proíbe que as orações sejam iniciadas com pronome oblíquo. Dessa forma, o juiz deveria dizer Cuide-se. Porém, essa transgressão é muitíssimo mais tolerada, inclusive, pelas pessoas de maior estudo. É nesse sentido que determinados erros gramaticais não discriminam o falante. É como se existissem categorias de erros gramaticais e categorias de quem comete esses erros. Daí, a flutuação no conceito de erro. Assim, quando o juiz diz Se cuida ao réu como puxão de orelhas, certamente esse erro de colocação pronominal não soaria tão vexatório aos presentes quanto à troca de menos por menas


Para recordar - verbo dar no imperativo afirmativo

Dá tu
Dê você
Demos nós
Dai vós
Deem vocês

 
A belíssima canção que você lerá a seguir surgiu no início do século XXI. Nela, o eu lírico se autoanalisa e se dá conta de que nada é perante Deus. Conclui que precisa ser perdoado e clama para que seu coração seja transformado a ponto de se igualar ao coração do Mestre e conseguir agir com o próximo da mesma forma que Cristo age conosco: amando, olhando e perdoando. 

Confira a letra. Aproveite para meditar na mensagem.

Coração Igual ao Teu (2001)
Diante do Trono

Se Tu olhares, Senhor, pra dentro de mim
Nada encontrarás de bom
Mas um desejo eu tenho de ser transformado
Preciso tanto do Teu perdão
Dá-me um novo coração

Dá-me um coração igual ao Teu, meu Mestre
Dá-me um coração igual ao Teu
Coração disposto a obedecer
Cumprir todo o Teu querer
Dá-me um coração igual ao Teu

Se Tu olhares, Senhor, pra dentro de mim
Nada encontrarás de bom
Mas um desejo eu tenho de ser transformado
Preciso tanto do Teu perdão
Dá-me um novo coração

Dá-me um coração igual ao Teu, meu Mestre
Dá-me um coração igual ao Teu
Coração disposto a obedecer
Cumprir todo o Teu querer
Dá-me um coração igual ao Teu

Dá-me um coração igual ao Teu, meu Mestre
Dá-me um coração igual ao Teu
Coração disposto a obedecer
Cumprir todo o Teu querer
Dá-me um coração igual ao Teu

Ensina-me a amar o meu irmão
A olhar com Teus olhos
Perdoar com o Teu perdão

Enche-me com Teu Espírito
Endireita os meus caminhos
Ó Deus, dá-me um novo coração
Enche-me com Teu Espírito
Endireita os meus caminhos
Ó Deus, dá-me um novo coração

Dá-me um coração igual ao Teu, meu Mestre
Dá-me um coração igual ao Teu
Coração disposto a obedecer
Cumprir todo o Teu querer
Dá-me um coração igual ao Teu

Dá-me um coração igual ao Teu, meu Mestre
Dá-me um coração igual ao Teu
Coração disposto a obedecer
Cumprir todo o Teu querer
Dá-me um coração igual ao Teu
Dá-me um coração igual ao Teu

Coração disposto a obedecer
Cumprir todo o Teu querer
Dá-me um coração igual ao Teu


A despeito de a maioria dos usuários da língua optarem pela forma proclítica em início de enunciados (me dá, me ensina, me enche), foi feita a opção pela ênclise (dá-me, ensina-me, enche-me) por parte da equipe musical. A forma proclítica é tão natural e óbvia para o brasileiro que você já ouviu ou disse algo mais ou menos assim em uma lanchonete: Por favor, me vê dois pasteis e um caldo. Por outro lado, a ênclise soa um tanto artificial apesar de ser a forma preconizada pela gramática. Nesse sentido, a letra está de acordo com a norma culta de forma geral, e em particular no uso dos pronomes oblíquos e da flexão dos verbos no modo imperativo.

Dá-me um novo coração igual ao Teu, meu Mestre ou Me dá um novo coração igual ao Teu, meu Mestre? Se a sua oração é sincera, se o seu desejo é viver conforme a estatura do Mestre, se o seu clamor é agir com o próximo da mesma forma que Cristo age conosco e em nós, não importa. Acertando ou errando a posição do pronome em relação ao verbo, Deus ouvirá e atenderá seu desejo por um coração de carne (Ezequiel 11: 19 e Ezequiel 36: 26 - ARA).

Se essa discussão for trazida para o contexto de culto público, onde todos ouvem a oração feita por um dos membros e a mensagem proferida pelo anjo da igreja, teremos outra discussão. Afinal, Tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais?

Fernando Fernandes



segunda-feira, 18 de maio de 2026

Logo eu?

 







Você já se deparou com alguma situação em que a expressão logo eu veio à mente? Provavelmente, sim. Ouso afirmar que a experiência se deu em um momento negativo. Quem sabe, você foi o escalado para cumprir hora extra. Quem sabe, você foi premiado com um pneu furado. Entretanto, gostaria de apresentar um contexto em que logo eu representa um prêmio, um presente, uma graça, um favor imerecido.

Para tal, peço que você leia atentamente e reflita na canção abaixo. Por ora, apenas leia. Em outro momento, ouça-a.

O Amor de Deus (Rachel Novaes e Marcelo Novaes)

Graça sobre graça, recebi
E da plenitude, renasci
Quando atraído, me encontrei
No amor de Deus

Viva e poderosa salvação
Luz que me alcançou na escuridão
Todo meu pecado se apagou
No amor de Deus

Logo eu, um pobre pecador
Logo eu, tão fraco e tão devedor
Logo eu, de graça recebi o amor de Deus
Logo eu, finito e carnal
Logo eu, diante de um Deus imortal
Logo eu, de graça recebi o amor de Deus

Graça sobre graça, recebi
E da plenitude, renasci
Quando atraído, me encontrei
No amor de Deus

Viva e poderosa salvação
Luz que me alcançou na escuridão
Todo meu pecado se apagou
No amor de Deus

Logo eu, um pobre pecador
Logo eu, tão fraco e tão devedor
Logo eu, de graça recebi o amor de Deus
Logo eu, finito e carnal
Logo eu, diante de um Deus imortal
Logo eu, de graça recebi o amor de Deus

O amor de Deus é rico em benefícios
O amor de Deus não mede sacrifícios
Dos braços desse amor, recebo o perdão
Comprado por Jesus

O amor de Deus é puro e consciente
Como as manhãs, é firme e constante
Que se entregou na cruz e a morte derrotou
O amor de Jesus

Logo eu, um pobre pecador
Logo eu, tão fraco e tão devedor
Logo eu, de graça recebi o amor de Deus (o amor de Deus)
Logo eu, finito e carnal
Logo eu, diante de um Deus imortal
Logo eu, de graça recebi o amor de Deus (o amor de Deus)
O amor de Deus (amor de Deus)

A canção apresenta um eu lírico (voz poética) que compartilha sua experiência com Deus ao seu interlocutor (cada um de nós, ouvintes ou leitores). E exatamente na antítese formada pela adjetivação feita a Deus em relação ao seu amor (rico em benefícios / que não mede sacrifícios / é perdoador / é puro e consciente / firme e constante / mais forte do que a morte) versus a condição do eu lírico (pobre pecador / fraco e tão devedor / finito e carnal).

E a expressão logo eu, como se dá o lado bom quando, normalmente, ela é usada como forma de reclamação ou ponderação negativa? 

Segundo a Bíblia de Estudo Almeida, graça é a bondade excepcional de Deus para com os seres humanos, na condição de pecadores, para tornar possível o seu perdão e salvação.

Por outro lado, Efésios 2: 4 a 9 afirma: Mas Deus, sendo rico em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou, estando nós ainda mortos em nossos delitos, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos), e nos ressuscitou juntamente com ele, e com ele nos fez sentar nas regiões celestes em Cristo Jesus, para mostrar nos séculos vindouros a suprema riqueza da sua graça, pela sua bondade para conosco em Cristo Jesus. Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não vem das obras, para que ninguém se glorie (ARA). Quando o eu lírico se dá conta da sua pequenez perante o Deus eterno a ponto de entender que só por meio do sacrifício de Cristo na cruz é que a salvação pode ser obtida meio da graça ou favor imerecido, a expressão logo eu é perfeitamente lógica como atitude positiva de surpresa.

Da mesma forma, o rei Davi se sentiu imerecedor das misericórdias de Deus pouco antes da passagem do trono para seu filho Salomão. Ao término da organização de todo o material para que seu filho pudesse iniciar e concretizar a construção do templo, Davi se deu conta do quanto ele conseguiu com as ofertas voluntárias, tanto dele como da população em geral. Nas palavras do cronista: Mas quem sou eu, e quem é o meu povo, para que pudéssemos fazer ofertas tão voluntariamente? Porque tudo vem de ti, e do que é teu to damos. (I Crônicas 29: 14 - ARA)

Em Davi, a expressão logo eu também se faz presente com as palavras quem sou eu / quem é o meu povo ao se surpreender com o resultado prático daquela oferta, pois ele o o povo se sentiam não merecedores de tanta graça.

O verbete logo possui inúmeros papéis gramaticais. Todavia, seu valor exclamativo de valor positivo dificilmente acontece. Mas acontece.

Por fim, que atitudes devo tomar, que comportamentos devo ter para que eu possa ser surpreendido positivamente por algo que não mereço, seja no plano espiritual, seja no plano humano?


Fernando Fernandes


sexta-feira, 24 de novembro de 2023

Casa no campo






Professor, podemos pintar no quadro branco? Prontamente, cedi a Ana e aos colegas algumas canetas para quadro branco.

O que seria mais um daqueles momentos de relaxamento ao final do Ensino Médio se tornou em uma grata surpresa.

Na minha mente, uma antiga canção de Elis Regina:

Eu quero uma casa no campo

Onde eu possa compor muitos rocks rurais
E tenha somente a certeza
Dos amigos do peito e nada mais

Onde eu possa ficar do tamanho da paz
E tenha somente a certeza
Dos limites do corpo e nada mais

E, nessa casa do campo, o eu lírico deseja projetar, presenciar, viver, realizar:

Eu quero carneiros e cabras
Pastando solenes no meu jardim
Eu quero o silêncio das línguas cansadas
Eu quero a esperança de óculos
E meu filho de cuca legal
Eu quero plantar e colher com a mão
A pimenta e o sal

E essa casa no campo, do tamanho ideal, pau a pique e sapê

Onde eu possa plantar meus amigos
Meus discos e livros, e nada mais
Onde eu possa plantar meus amigos
Meus discos, meus livros e nada mais
Onde eu possa plantar meus amigos
Meus discos e livros, e nada mais

Enquanto o desenho era construído a várias mãos, fiquei imaginando o que eu gostaria de realizar na casa desenhada.

Sinceramente, não consegui ir além de me imaginar descendo no escorregador e de observar os pequenos animais a beber água. 

Mas consegui me imaginar vivendo o meu carpe diem naquele locus amoenos. 

Pena que não tenho tantas palavras quanto Elis Regina na canção homônima.

Simples.

Não esperava aquele presente naquela manhã de novembro de 2023.

Fernando Fernandes

quinta-feira, 1 de junho de 2023

Natureza

 


Há momentos 

que os dois necessitam 

 ser vigiados. 


Acontece até na natureza.


Os dois se olhando

e vigiando o

espaço

que lhes pertencem.


Acontece até na natureza.


Os dois se estudando

e avaliando

as possibilidades

futuras.


Acontece até na natureza.


O cuidado um pelo outro começa nas 

pequenas facetas!


Assim somos nós:

Somos vigiados

Nos vigiamos

Vigiamos nosso espaço

Estudamos nosso futuro.

Nos cuidamos.


Acontece até na natureza.






domingo, 19 de março de 2023

Ferreira Gullar e Carlos Drummond de Andrade: uma intertextualidade

 




Como dois e dois são quatro (Ferreira Gullar)



Como dois e dois são quatro
Sei que a vida vale a pena
Embora o pão seja caro
E a liberdade pequena


Como teus olhos são claros
E a tua pele, morena
como é azul o oceano
E a lagoa, serena


Como um tempo de alegria
Por trás do terror me acena
E a noite carrega o dia
No seu colo de açucena


- sei que dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
mesmo que o pão seja caro
e a liberdade pequena.






No meio do caminho (Drummond)


No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.


Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.


Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.




Breve comentário

Intertextualidade significa diálogo entre textos. E esse diálogo pode acontecer de diferentes maneiras. No nosso caso, não faz diferença se um texto motivou um novo texto ou não. Se essa intertextualidade é percebida pelo leitor, está valendo. Fiquemos com a última hipótese.

O poema 1 parte da certeza de que a vida vale a pena de ser vivida, independente das várias dificuldades enfrentadas. Lá, são citadas o alto preço do pão e a pouca liberdade, metáforas para diferentes obstáculos que surgem ao longo da nossa permanência neste mundo. E essa certeza é comparada a outras certezas por meio do termo comparador como, de forma explícita ou não: uma certeza matemática (verso 1), quatro certezas de cunho pessoal (versos 5 a 8) e duas certezas de que os eventos são cíclicos (versos 9 a 12). A última estrofe retoma a estrofe inicial, com ênfase na certeza de a vida deve ser vivida intensamente.

O poema 2 segue uma linha de raciocínio similar, ao enfatizar a tribulação, o obstáculo, a dificuldade. Entretanto, o eu lírico não deixa claro se houve superação ou não, se houve derrota ou não. Apenas enfatiza a lembrança dessa pedra no seu caminho. E a estratégia adotada pelo eu lírico para deixar bem clara essa marca psicológica na sua caminhada foi a inversão dos termos das orações e a repetição de palavras.

Por fim, as respectivas vozes poéticas expressam diferentes abordagens a partir das dificuldades da vida. O primeiro prefere enfatizar a necessidade de seguirmos em frente; o segundo, enfatiza a dificuldade. Entretanto, ambos também enfatizam as dificuldades da vida. Tanto é que pão, liberdade pequena e pedra - ao aproximar os dois poemas neste bate-papo - são sinônimos e, ao mesmo tempo, metáfora para tal. Da mesma forma, vida e caminho.

E a imagem acima de uma planta que consegue vencer a dureza e o calor do asfalto? Essa pequena análise de intertextualidade entre a imagem e os poemas, deixo para você, leitor.

Nesse pequeno exercício interpretativo, duas diferentes abordagens são sugeridas a mim e a você, leitor. Diante das tempestades da vida, devemos direcionar nossa atenção a elas ou buscar na nossa alma incentivos para superá-las. Na sua opinião, qual é a melhor escolha?

Eu já fiz a minha.

Fernando Fernandes

sábado, 25 de fevereiro de 2023

Esperanças sempre se renovam

 

Março de 2007


Junho de 2007


Setembro de 2009


Dezembro de 2011

Fevereiro  de 2023



Hoje, fevereiro de 2023, sempre que passo por esse jardim, não consigo me esquecer de como ele era no passado. Antes, um toco de eucalipto queimado. Árvore antiga que teve seu fim, como tudo na natureza. 

Felizmente, esperanças sempre se renovam.

A partir de 2006,  o professor Moraes (hoje ele trabalha em outra escola) comprou a seguinte briga, no bom sentido: reflorestar nosso colégio. E um desses espaços correspondia a atual pracinha entre a sala de informática, o bloco A e o bloco C do Centro de Ensino Médio Taguatinga Norte. Observe como foi o desenvolvimento da pracinha, a partir das datas citadas (data de criação informada nas propriedades)

Foi trabalho árduo. Vários alunos, de forma completamente voluntária e sem a contrapartida de nota,  acreditaram na proposta daquele professor. 

Atualmente, há tanta sombra produzida que as salas de aula ao redor são arrefecidas. E, inclusive, há bancos para que possamos descansar. Se você conhece o local, concordará comigo.

O escritor bíblico, quando afirmou 'quero trazer à memória o que me pode dar esperança' (Lamentações de Jeremias capítulo 3, versículo 21 - ARA) em um contexto de extrema dificuldade, aflição e pranto, deixou, sem saber, um conselho para mim e para você. 

Sempre que pedras aparecerem no nosso caminho e você tenha vontade de desistir, faça uma varredura dentro do seu coração e busque algo que possa servir de incentivo para seguir em frente.

No meu caso, entre outras experiências motivadoras, a história desse jardim me impulsiona. 

Felizmente, esperanças sempre se renovam.

Fernando Fernandes
    
       






Impressões


Publicado originalmente no blog pherrocha.blogspot.com 
em 22 de junho de 2021, também de minha autoria. 
Lá, há outras postagens.

     Ainda pelas minhas andanças pela Asa Sul, em um dos momentos da fuga de casa em meio à pandemia que assola a cada um de nós, deparei-me com o cenário acima. Um órgão público do GDF, entre a edificação e o estacionamento.
     Que vontade eu tinha de estar ali. Antes, porém, registrei a cena digitalmente. “Que mico!”, Pensei. Hesitei. Por fim, desfrutei meu carpe diem em um daqueles assentos.
     'Carpe Diem' e 'Locus Amoenos' - você deve se lembrar - são expressões latinas utilizadas na literatura para traduzir a experiência de viver seu sonho em um local aprazível. Exatamente o que a mídia propaga ao divulgar suas viagens paradisíacas e, por extensão de      significado, no desejo de posse de determinado bem (automóvel, celular, etc).
Por outro lado, lembrei-me dos versos de Vinícius de Morais: Como a criança que vagueia o canto / Ante o mistério da amplidão suspensa / Meu coração é um vago de acalanto / Berçando versos de saudade imensa. Sim. É o vazio de algo necessário na alma do eu lírico ou algo que precisa preencher esse 'vago de acalanto'.
     Por fim, sem nada combinado de véspera, enviei a imagem acima para o WhatsApp da minha esposa e pedi-lhe que respondesse à seguinte pergunta: O que vem ao seu coração a partir da imagem?
      E a sua impressão sobre os dois bancos em ângulo de 90 graus chegou até mim, palavras transcrevo:

“O silêncio ambiental mostra como dói não ver
 e ouvir a voz de 
outra pessoa. 
Muitas vezes, ficamos presos 
a padrões que 
a sociedade nos impõe e nos esquecemos 
do mais importante que é 
o relacionamento saudável entre nós, 
seres humanos. 
Com a pandemia, estamos nos sentindo assim, 
como a imagem dos bancos seriados 
por uma grama ou uns passarinhos que aparecem 
para alegrar o ambiente que, um dia era cheio 
de calor humano. 
E hoje, resta só o vazio”.



       O que vem ao seu coração a partir da imagem?

Fernando Fernandes