quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Fluidez





Há uns dez anos, como currículo obrigatório para os alunos do primeiro ano do Ensino Médio, deparei-me com este poema camoniano no livro didático. Mais do que teorizar sobre a estrutura do soneto, análise de métrica e de rima, optei por refletir sobre a mutabilidade das coisas. A pequena conversa abaixo foi publicada no blog que utilizava com a finalidade de apoio didático aos estudantes daquele momento.


Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o Mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem (se algum houve), as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria,
e, enfim, converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto,
que não se muda já como soía.

Há quinhentos anos, Camões (1525-1580 )já afirmara que todo o Mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades a partir da constatação de que os tempos, as vontades, o ser e a confiança estão sempre em processo de mudança. Por outro lado, Zygmunt Bauman (1925-2017) traz à lume a ideia de sociedade líquida, na qual tudo é volátil, amoldável, flexível, temporário.

Detalhemos melhor cada afirmação.

No poema camoniano, ele parte das mudanças que ocorrem na natureza e nele mesmo como sustentação da sua tese. Para ele, tudo se modifica, seja para a melhor (na natureza) ou para a pior (sua própria vida). As novas qualidades não são sinônimo de aperfeiçoamento, obrigatoriamente, conforme os versos  Continuamente vemos novidades / diferentes em tudo da esperança.

Para o sociólogo contemporâneo polonês e radicado na Grã-Bretanha, a falta de investimentos a longo prazo nos relacionamentos, a necessidade que temos de comprar aquilo que, efetivamente, não nos falta e a constatação de que tudo é descartável são exemplos da liquidez social em que vivemos. Não há mais raízes, tradições. Há uma excessiva busca pelo novo, assim como a água assume a forma de qualquer coisa que a contém.

Camões revela que a necessidade de mudança é inerente ao ser humano. Conforme ganhamos idade e experiência de vida, é normal que nossos valores se modifiquem. As relações familiares, assim como as escolares, profissionais, aquelas que envolvem namoro, noivado e casamento e outras relações, todas elas permitem troca de experiências a ponto de sermos um pouco de cada colega ou familiar que passou pela nossa vida, assim como eles são um pouco de nós. Daí as mudanças.

Na sua leitura do mundo contemporâneo, Bauman revela a patologia causada pela mídia e pelo consumo, pilares da pós-modernidade. Por exemplo, o governo brasileiro reduziu o Imposto sobre Produtos Industrializados dos automóveis zero-quilômetro para aumentar vendas. Por outro lado, fora divulgado que o funcionalismo federal não receberia qualquer reajuste de salário naquele ano. Os bancos e financeiras alardeiam redução de juros para incrementar a quantidade de dinheiro em circulação por meio do financiamento de bens e produtos, porém todos sabemos que boa parte da população brasileira está comprometida com prestações. A coisa está tão liquefeita que você tem a posse de um carro que não lhe pertence ou do celular da maçã que ainda pertence à operadora que lhe vendeu e, antes que você consiga quitar, se quitar, todas as prestações, já estará trocando por outro similar só porque a lanterna traseira ficou maior ou porque a maçã, agora, está mordida dos dois lados. Nessa troca, você ganha o prazer de estar atualizado em relação ao produto que possuía; contudo, perde dinheiro e ganha mais prestações até alguém seduzir você novamente. Nas relações que envolvem namoro, noivado e casamento e valores familiares, temos o hábito de definir como ética essa fluidez. Basta um exercício de raciocínio. Com certeza, exemplos virão à mente.

Se Camões afirmava que as mudanças são inerentes ao ser humano e se Bauman constata que há busca excessiva por mudanças, como conciliar a necessidade que há em nós em buscar o novo sem entrarmos na fluidez social?

Ainda busco respostas. Você as tem?


Fernando Fernandes
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quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Reflexos


A experiência vivida  há mais de dez anos tinha tudo para ser ficção. Mas não foi.

Havia encerrado e quitado mais um almoço em um dos quatro self-service restaurants, próximos ao meu local de trabalho. Como dispunha de tempo livre, optei em assistir parte do noticiário veiculado pela televisão ali mesmo.

Enquanto o apresentador revelava cada uma das notícias, pensava na difícil situação dos passageiros da região de Sobradinho e Planaltina, a ineficiência da máquina pública em dar uma solução definitiva ao caos no transporte público e se eu degustaria uma coca-cola.

Novas notícias foram veiculadas referentes a velhos problemas. Pessoas que estacionam em local não permitido; que matam esposas ou ex-esposas; que teimam em deixar bem óbvio a inércia do estado quando se trata do bem-estar do cidadão. Sinceramente, não sei o porquê de eu assistir telejornais. São todos iguais. Só há a perpetuação da miséria humana. Mas havia algo novo. A coca-cola ao meu lado.

O estado de lerdeza no qual me encontrava foi interrompido ao observar duas crianças sentadas à mesa ao meu lado. Nos seus pratos, absolutamente nada de legumes ou hortaliças quer sejam cruas ou cozidas.

Continuei degustando minha coca-cola e vi a mãe retornar ao balcão, agora para se servir. Ela se serviria dos alimentos não escolhidos pelos filhos?

Minha coca-cola acabou e a preguiça em retornar ao trabalho se manteve. Mas a expectativa do suspense em relação ao cardápio da mãe aumentou. Estava perto o suficiente do balcão para contemplar o resultado da sua avaliação após ela checar, uma a uma, as opções existentes no balcão de alimentos.

Que pena! Ela seguiu o padrão de escolha das crianças ou reforçou para os pequenos o exemplo a ser seguido?  

Fiquei sem resposta. 

Nada de alface, beterraba, cenoura, pepino, repolho, tomate, vagem e outros correlatos. Pelas quantidades do que havia em cada um dos três pratos, nada excepcional. Apenas o que não se encaixa em verduras e legumes. Como eu, as crianças pediram coca-cola para a atendente.

Desculpe-me. Havia batatas fritas nos seus pratos.

Levantei-me. Dirigi-me ao caixa para pagar o refrigerante. Dei uma nota de cinco reais para cobrar dois reais e oitenta centavos. Novo susto. A jovem, sem titubear, lançou mão da maquineta para calcular meu troco.

Recebi a demasia e deixei o restaurante já pensando no meu próximo almoço. Onde seria? Serviriam fritas? Haveria nova guerra interior em relação à coquinha?

Só uma certeza. No meu prato, nada de carne e muito legume com verduras. Inclusive batatas fritas.


Fernando Fernandes
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quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Prazeres






A experiência abaixo foi vivenciada antes de 2013, quando ainda possuía um Ford Fiesta Sedan.

Há uma semana, dirigi-me ao comércio local para cumprir duas missões igualmente importantes. Por questões de comodidade, deixei meu carro em um local em que não me aborreceria em manobrar ou mendigar vaga. Sabia que daria duas caminhadas.

Na primeira etapa, tudo transcorreu normalmente. Guardei a primeira encomenda no carro e retornei ao comércio para a próxima empreitada.

De repente, não mais do que de repente, tudo escuro.

Uma chuvarada de dez minutos transformou a rua em rio. E lá estava eu querendo atravessá-la. Mas com fazê-lo sem nadar?

Fiquei parado observando os pedaços de pau, latinhas de refrigerante e sacos plásticos que tentavam se salvar inutilmente da correnteza. Também as marolas que os automóveis criavam.

Foi gostoso.

Lembrei-me de outra chuvarada há uns vinte anos. Daquela vez, eu encarara tudo a ponto de chegar à sala de aula da faculdade igualzinho a um pinto molhado.  E de uma outra, quando resolvera ir de Taguatinga a Samambaia pedalando. Retornara mais encharcado do que... E uma na minha adolescência, ao usar minha bicicleta para ir ao hospital visitar minha mãe que sofrera uma intervenção cirúrgica. Que mico! De um ano para cá, uso bicicleta ou meus pés para ir ao trabalho. Ainda não aconteceu.

A chuva cessou. O mover das águas, não.

E continuava a viajar no tempo quando fui despertado por um senhor que destrancava seu carro para seguir seu destino.

- Você quer atravessar a rua?

- Estou esperando abaixar a maré.

- Então embarque.

Teve início uma nova viagem.

Fernando Fernandes

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quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Quem sabe, quem sabe, quem sabe





Gostaria de reviver uma experiência real que se passou há mais de dez anos. 


Há dias em que saio da escola onde leciono como se estivesse saindo do céu. Recentemente, eu e outros professores encaramos uma jornada no turno contrário quando tínhamos o auditório cheio de alunos em uma verdadeira demonstração de respeito e educação. Infelizmente, em outros dias, parece que ao sair da escola é que vou entrar no céu. E é sobre esses poucos momentos que quero discorrer nesse momento.

Um desses momentos aconteceu recentemente em uma turma do Ensino Médio do último horário do turno vespertino. Reconheço que a escola não é o lugar mais bonito do mundo embora tenhamos área verde para circulação. Reconheço que o ambiente físico não é lá uma Brastemp embora tenhamos uma boa sala de aula, cadeiras, quadro, TV, equipamentos de multimídia e iluminação. Reconheço também que a estrutura pedagógica não é a ideal, embora tenhamos uma direção que sabe decidir e resolver problemas. Em determinados momentos, há a carência de professores embora no geral a grade curricular esteja completa. E olha que boa parte deles possui Pós-Graduação ou Mestrado. Temos inclusive um orientador educacional. Só não consigo reconhecer o fato de jovens que têm acesso ao estudo aproveitarem seus momentos em sala para distrair o colega, conversar fiado, preocupar-se com o celular. Enfim, sabotar a aula, destruir a saúde de quem está à frente e desrespeitar o direito do colega ao estudo. Mas quero entender.

Quem sabe, a aula está muito simples. É como se esse aluno dissesse que já domina o assunto que está a ser ministrado. Mas como fica seu colega que ainda não teve acesso a aquela informação?

Quem sabe, esse aluno não está entendendo nada. Mas, no lugar de procurar crescer por dentro e correr atrás do prejuízo, é mais fácil aliviar a dor do não entendimento ao fazer com que outros alunos que querem entender, não entendam.

Quem sabe, o professor está ensinando errado. Se o aluno percebeu que alguma informação passada pelo professor não procede, esse aluno tem o direito e o dever de, de forma educada e discreta, dar um toque no seu professor sobre o fato. Só que é mais fácil destruir do que ajudar ao seu professor a dar uma aula melhor.

Quem sabe, quem sabe, quem sabe... Poderia ficar enumerando outras possibilidades, mas vou parar aqui.

Retornando ao momento citado no final segundo parágrafo, saí da sala de aula ao final do expediente extremamente triste, desmotivado, chateado com o que acontecera. Mas antes que chegasse ao estacionamento, a sensação de estar saindo do céu retornou ao meu coração ao cumprimentar e ser cumprimentado por uma ex-aluna e ter ouvido da parte dela palavras espontâneas de gratidão. Ela, mesmo sem poder enxergar meu rosto - ela é totalmente cega -, enxergou meu coração.

Sem saber, ela me deu o carinho que não recebi naquela turma do último horário daquele dia.

Fernando Fernandes

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segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Quebrada


Todos nós pertencemos a alguma quebrada. Não importa o local, o bairro, a cidade, o país ou o continente. Com memórias afetivas boas ou ruins, possuímos uma origem, vivenciamos histórias e acumulamos experiências.

Na publicação de hoje, quero apresentar o belo poema composto pelo João Lucas Fernandes Alves apresentado à Escola Parque Anísio Teixeira (DF).   Atualmente com 19 anos de idade, o jovem é estudante de Medicina Veterinária pela Universidade de Brasília. Como futuro profissional da área,  João pretende trabalhar no interior baiano, região onde os familiares paternos vivem. 

Apreciemos, então, esse belo poema.

Sim, eu sou da quebrada
Da quebrada do meu sertão,
Onde o sol esconde a lua
E a lua vira rojão 
Sons de maracatu ao vento
Marcando tempo ao baião.

Sim, eu sou da quebrada 
Mas da quebrada do outro lado,
Marcada por fitas coloridas
Do Cavalo Marinho, do Reisado
Lembranças de outras vidas
No som da viola do amado.

Sim, eu sou da quebrada 
Mas da quebrada do outro mar;
Ruralizada no Bumba meu Boi
E nos navegantes de Iemanjá,
Que é e sempre foi
O retrato do beira mar.

Sim, eu sou da quebrada 
Mas da quebrada dos violeiros;
Contadores experientes 
De seus versos certeiros, 
Que navegam em suas mentes
E nos grotões sertanejos.

Sim, eu sou da quebrada 
Mas da quebrada dos tabuleiros,
Que ecoa em bom som
A melodia dos sanfoneiros,
Enamorando o fino tom
Do grosso dançar forrozeiro.

Sim, eu sou da quebrada 
Mas da quebrada do gibão,
Couro forte e grosseiro 
Dum maioral do sertão;
Um europeu guerreiro 
Montado no alazão.

Sim, eu sou da quebrada 
Mas da quebrada cultural,
Presentes lá no ceio
Da grande Torre Digital,
No Cantador e Seu Estrelo
Estão lá vivas, afinal.

Sim, eu sou da quebrada 
Mas da quebrada sem fim,
Das festas do padroeiro 
Ou da lavagem do Bonfim
Fico mesmo até cabreiro 
Quando estão longe de mim.

Sim, eu sou da quebrada 
Mas da quebrada de guerrilheiros,
Dos tristes Capitães do Mato
Há volantes e cangaceiros,
Das vítimas de ferro aço 
E da fome e seus companheiros.

Mas sim, eu sou da quebrada 
Mas da quebrada de Ser Tão,
Ser vivo nas emboladas
Tão eternas neste rincão, 
Ser vaqueiro nas toadas 
Tão culturais no meu chão.

Sim, eu sou da quebrada 
E por ela eu não me calo,
Lhe canto em poesias
Em veste de rico trapo,
Embarco nas maresias
De doce gosto amargo.

João Lucas Fernandes Alves

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Entrelinhas


Ao longo da semana anterior, deparei-me com a seguinte indagação: Se Davi foi livre dos seus temores quando ele buscou ao Senhor (Salmos 34: 4 - ARA), por que os meus ainda persistem? No mesmo poema, mais à frente, o salmista sugere que experimentemos da bondade, da proteção e do livramento do Altíssimo quando ele afirma categoricamente: "Provai e vede que o Senhor é bom; bem-aventurado o homem que nele se refugia" (Salmos 34: 8 ARA). Ainda mais à frente, o salmista também sugere que as aflições  e os livramentos fazem parte da nossa caminhada ao asseverar: "Muitas são as aflições do justo, mas o Senhor de todas o livra" (Salmos 34: 19 ARA). 

Uma nova semana teve início quando, em conversa com a minha amada sobre minhas indagações, surgiu o texto bíblico utilizado em um culto há uns meses, na cidade de Guarapari-ES. Era uma terça-feira e houve um culto voltado para o público feminino. Na véspera, havíamos participado da reunião noturna daquela igreja quando a programação foi anunciada. Como a igreja era perto de onde estávamos hospedados e minha esposa desejou participar, fomos.

Naquele culto para as mulheres, éramos poucos homens presentes. Ao chegarmos lá, perguntei à equipe de recepção se eu poderia entrar. Permissão concedida, participei daquela reunião. Entre outras reflexões bíblicas, cânticos congregacionais e informações sobre o trabalho feminino da Convenção Batista do Espírito Santo naquela cidade,  a pregadora se valeu do texto bíblico abaixo para a reflexão principal.

Hebreus 4: 14 a 16 ARA

¹⁴ Tendo, pois, a Jesus, o Filho de Deus, como grande sumo sacerdote que penetrou os céus, conservemos firmes a nossa confissão.

¹⁵ Porque não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; antes, foi ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado.

¹⁶ Acheguemo-nos, portanto, confiadamente, junto ao trono da graça, a fim de recebermos misericórdia e acharmos graça para socorro em ocasião oportuna.

Voltando ao presente, fiz uma busca nas minhas anotações a partir do que foi ensinado naquela noite. Entretanto, mesmo que não as possuísse, a simples releitura dos versículos acima seria (como foi) suficiente para aquietar meu coração em relação à indagação inicial, mas um aquietar do tipo puxão de orelhas. Tenho vergonha de desenvolver os versos acima, pois eles são muito óbvios em relação ao que me faltou crer com o coração. 

É mais ou menos o que a professora de Educação Musical do antigo ginasial fez comigo. Seu nome era Maria Lúcia.  Em uma aula, foi pedido aos alunos que se sentassem em duplas. Uma música instrumental seria executada. Deveríamos ouvi-la com atenção e, em seguida, um desenho deveria ser feito. Atividade cumprida. Atividade entregue pelo meu parceiro de dupla à professora. Minutos depois, fui chamado à sua mesa. Ela me pediu para ler mentalmente o que estava na folha em que o desenho deveria ter sido feito. Não me recordo literalmente de cada palavra, mas o que meu colega de dupla escrevera era mais ou menos assim: "Por causa do meu colega do lado, não pude me concentrar para elaborar o desenho". Lidas aquelas palavras, a professora me perguntou se eu havia compreendido o recado, no que lhe respondi afirmativamente. Por fim, ela mandou-me sentar.

Cristo repetiu, cinquenta anos depois, a mesma pergunta feita pela minha ex-professora Maria Lúcia:  "Você compreendeu o recado?" 

Fernando Fernandes





 


quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Deleite

 


Gostaria de discorrer um pouco sobre os dois primeiros versículos do Salmo 21, conforme a versão Almeida, Revista e Atualizada.

¹ Na tua força, Senhor, o rei se alegra! E como exulta com a tua salvação!

² Satisfizeste-lhe o desejo do coração e não lhe negaste as súplicas dos seus lábios.

O poema, como um todo, apresenta uma voz em primeira pessoa que se dirige a Deus sobre uma terceira pessoa. No trecho em destaque, é revelada a alegria da voz poética pela benção concedida ao rei, conforme o desejo do coração deste. O pronome tua e a flexões verbais satisfizeste e não negaste fazem referência a Deus (com quem se fala); os pronomes lhe, seus e as flexões verbais se alegra e exulta fazem referência ao rei (de quem se fala). Para efeito de raciocínio, suponhamos que o salmista tenha utilizado o recurso da falsa modéstia, no sentido de que ele estaria falando do seu próprio sentimento de satisfação por ter recebido de Deus conforme seu coração desejou. 

Ouso afirmar que todos nós, em algum momento da vida, fomos aquinhoados com alguma coisa conforme planejado, desejado, sonhado. Lembro-me de um caminhão de brinquedo, desses que transportam automóveis. Vi-o em uma loja e desejei-o. Tempos depois, meu pai me deu o dinheiro e pude comprá-lo. A aprovação em um concurso ligado à carreira militar foi outra bênção de Deus na minha vida. Meu casamento, idem. Todavia, essas realizações não se deram como que por encanto. Houve um tempo entre o sonho  e a concretização. No caso do brinquedo e no caso do concurso, foram poucos meses. Já o casamento, como demorou. Até pensava que eu usava repelente. Muitas amigas, poucas confidentes, zero namorada. Quando namorava,... Deus poderia ter negado meu anseio porque, quando oramos, pedimos que a vontade do Senhor seja feita, assim na terra como no céu. Entretanto, o casamento chegou e se consolidou. Nos três exemplos,  Deus não negou as súplicas dos meus lábios conforme o meu desejo. 

Retomando a bênção do casamento, reconheço a importância do tempo como fator de aprendizado. Foram nãos que se converteram em espera e a espera que me fez entender o porquê daquelas negativas. Na verdade, não existe uma relação entre pedido e recebimento tendo o tempo como parâmetro.

Infelizmente, parece que ainda tomamos leite. Desde sempre, somos infiéis mesmo abençoados. Assim aconteceu na caminhada do povo de Israel antes e após Moisés e Josué. O período dos juízes exemplifica o ciclo fidelidade / infidelidade / aperto divino / livramento. É receber o alívio da parte de Deus e ter nova crise de amnésia espiritual. Nós não amadurecemos, nós não progredimos, nós não nos desenvolvemos na mesma proporção em que somos agraciados por Deus a partir das petições que fazemos. É sempre o mesmo cardápio lácteo com pouquíssimas variações. Carne que é bom, nada.

Há muito para aprimorar, progredir e evoluir na caminhada cristã. Por mais boa vontade que tenhamos, por mais oração que façamos e por mais que meditemos na Palavra,  sempre derrapamos na nossa humanidade. Ainda bem que as misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos. 

Fernando Fernandes




quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Doce voz



Na Igreja Batista de Barão da Taquara, onde praticamente nasci e congreguei até me mudar para Brasília, cresci tendo o Cantor Cristão como fonte auxiliar de inspiração e de devoção. Ao relembrar esse passado,  o seguinte trecho do hino 384 veio ao meu coração.

Que doce voz tem meu Senhor!
Voz de amor tão terna e graciosa
Que enche o coração,
Dá consolação
Que só o crente goza.

Considerando a época em que João Avelino de Souza (1886-1962) escreveu essa letra para a melodia de Austin Miles (1868-1946), os únicos estranhamentos semânticos no trecho apresentado se fazem presentes no substantivo crente e na flexão verbal goza. Na época, crente era, literalmente, sinônimo para salvo; hoje, nem tanto. Já a flexão verbal goza adquiriu maior conotação negativa, embora admita o significado de usufrui, desfruta, regozija.

As adjetivações e ações atribuídas à voz do Senhor foram um verdadeiro assalto ao meu lado racional. Segundo o eu lírico, a voz do Senhor é doce, terna e graciosa;  a voz do Senhor enche o coração, dá consolação e apenas as pessoas que um dia abriram seu coração a Cristo são capazes de usufruí-las.

Enquanto tentava equalizar meus pensamentos a partir da experiência acima, a canção composta pelo grupo Vencedores por Cristo no final da década de 1990 também veio à mente.

Só de ouvir tua voz
De sentir teu amor
Só de pronunciar o teu nome
Os meus medos se vão
Minha dor, meu sofrer
Pois de paz tu inundas meu ser

Jesus
Que doce nome
Que transforma em alegria
O meu triste coração

Nela, o mesmo fenômeno semântico em relação à voz de Jesus se faz presente. O nome de Jesus, seja dito ou ouvido, é capaz de dissipar os medos, as dores e o sofrer, pois transforma a tristeza em alegria em função da paz que inunda o coração do eu lírico.

Enquanto ainda tentava equalizar meus pensamentos a partir da experiência acima, fui até às Sagradas Escrituras. Em uma breve pesquisa por vocabulário que pudesse balizar as experiências musicais citadas, encontrei os versos a seguir.

Salmos 19: 7 a 10 ARA + Salmos 119:103 ARA

⁷ A lei do Senhor é perfeita e restaura a alma; o testemunho do Senhor é fiel e dá sabedoria aos símplices.
⁸ Os preceitos do Senhor são retos e alegram o coração; o mandamento do Senhor é puro e ilumina os olhos.
⁹ O temor do Senhor é límpido e permanece para sempre; os juízos do Senhor são verdadeiros e todos igualmente, justos.
¹⁰ São mais desejáveis do que ouro, mais do que muito ouro depurado; e são mais doces do que o mel e o destilar dos favos. 

¹⁰³ Quão doces são as tuas palavras ao meu paladar! Mais que o mel à minha boca.

A Bíblia também faz referência à doçura da voz de Jesus. A mesma lei do Senhor é perfeita e restaura a alma; o mesmo testemunho do Senhor é fiel e dá sabedoria aos simples (versículo 7); os mesmos preceitos do Senhor são retos e alegram o coração; o mesmo mandamento do Senhor é puro e ilumina os olhos (versículo 8); o mesmo temor do Senhor é límpido e permanece para sempre; os mesmos juízos do Senhor são verdadeiros e todos igualmente, justos (versículo 9).  

Todos os sujeitos desses versículos (a lei do Senhor, o testemunho do Senhor, os preceitos do Senhor, o mandamento do Senhor, o temor do Senhor e os juízos do Senhor) concordam com a flexão verbal são que inicia o décimo versículo. As adjetivações feitas aqui são no sentido de que, além das adjetivações e ações apresentadas anteriormente, a doce voz de Jesus é mais desejável do que o ouro mais puro que possa existir e mais doce do que o mel, por melhor que seja destilado e por mais puro que seja. Tudo é retomado no versículo 103 do capítulo 119 do livro dos Salmos. Em suma, a doce voz de Jesus é multiforme seja por meio da lei, do testemunho, dos preceitos, do mandamento, do temor e dos juízos 

Diferentes experiências ao longo do tempo sobre a doce voz de Jesus foram apresentadas. Desde Davi (Salmos 19), a autoria indeterminada (Salmos 119) até as canções apresentadas corroboraram a afirmação de que todas foram um assalto ao meu lado racional. Todas, absolutamente todas as caracterizações e ações da doce voz de Jesus expressas no presente do indicativo revelam condição atual no momento da fala e não deixam margem a dúvidas quanto à veracidade do que é dito. Entretanto, qual é a causa de duvidarmos da ação de Deus na nossa vida nas diversas situações de desconforto que enfrentamos? Por que não cremos que Cristo está no barco onde estamos? Por que agimos como José (poema de Drummond)? Se somos salvos e redimidos pelo sangue de Jesus, por que nós nos definhamos frente a dificuldades?  

O assalto ao meu racional se desfez quando me dei conta de que a certeza da presença divina na nossa caminhada,  diante das ansiedades, dos tormentos e das agonias da vida não é excludente. Quando Davi expôs sua angústia a Deus ao clamar: "Estou cansado de tanto gemer; todas as noites faço nadar o meu leito, de minhas lágrimas o alago" (Salmos 6:6 ARA), a hipérbole utilizada traduz nossa condição humana frente ao desconhecido. Da mesma forma, quando Cristo clamou ao Pai: "Meu Pai, se possível, passe de mim este cálice! Todavia não seja como eu quero, e sim como tu queres" (Mateus 26: 39 ARA), ele rasgou seu coração para expressar sua angústia no sentido da possibilidade de ser poupado do sacrifício vicário. Nos dois casos, as aflições caminham lado a lado com a presença de Deus. Como o próprio Cristo afirmou certa vez, "No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo". (João 16: 33 ARA).

Na minha trajetória cristã, reconheço a presença e a proteção de Cristo. Sei que só cheguei onde estou  em função da mão abençoadora de Jesus.  Entretanto, ainda não vivi aquele tipo de experiência em que, verdadeiramente, a doce voz de Jesus será capaz, peremptoriamente, de inundar o meu coração do verdadeiro gozo, do verdadeiro deleite, do verdadeiro regozijo. Mas conheci algumas pessoas que viveram isso. 

Dentre elas, meu sogro. Nos seus últimos anos de vida.


Fernando Fernandes

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Tu és






Tu és + Águas Purificadoras
Fhop (Florianópolis House of Prayer) - 2022

Junto ao poço estava eu
Quando um homem judeu
Viu a sede que havia em mim
Sem me ouvir conheceu
E me ofereceu
Uma água que jorra sem fim

Dá-me de beber
Pois tenho sede
Não quero mais buscar
Em outras fontes
Não precisarei aqui voltar
Pra minha sede saciar
Uma vez que já ouvi Teu falar

Tu És por quem a minha’alma esperou
A fonte da vida que me encontrou
És o dom de Deus o Messias
O meu Salvador



Até pouco tempo, sempre entendi que os cânticos contemporâneos careciam de fundamentação teológica. Em parte, é verdade. Muitos deles possuem  letra rasa, repetitiva e envolvida em uma melodia paupérrima a ponto de se transformar em goma de mascar na mente do ouvinte. Relembre, agora, uma marchinha de carnaval ou um jingle de propaganda eleitoral. Se você obteve sucesso nesse mini desafio, não foi porque as músicas eram boas ou ruins. Mas sim pelo seus efeitos chicle nelas.

Entretanto, há pérolas no mundo congregacional cristão. Uma delas é a canção que abre essa publicação.  Há um bom tempo, tive o privilégio de visitar a igreja onde praticamente nasci e cresci em um culto ao vivo pela Internet. Naquele evento matinal, foi recitado um poema autoral baseado no trecho bíblico sobre a mulher samaritana e a pregação também foi baseada nesse episódio. Posteriormente, cada vez que a canção acima era entoada nos nossos nossos cultos noturnos, a experiência daquela manhã dominical vinha ao coração.

Gostaria, apenas, de desenvolver os versos não quero mais buscar em outras fontes.

Se a mulher samaritana não deseja mais buscar a água em outras fontes, ela se dá conta que a água apresentada por Cristo é suficiente para saciar sua sede. Como água e sede são metafóricos, a forma verbal saciar traz a ideia de que eventuais carências interiores são plenamente dessedentadas pela água. Nas palavras de Cristo, quem beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede (João 4: 14 ARA).

Da mesma forma, uma canção antiga dos Vencedores por Cristo já afirmava: Satisfação é ter a Cristo / Não há melhor prazer já visto / Sou de Jesus, agora eu sinto / Satisfação sem fim / Satisfação é nova vida / Eu com Jesus em alegria / Sempre cantando a melodia / Satisfação sem fim. Com letra aparentemente volátil, o cântico deixa transparecer a efemeridade do substantivo abstrato satisfação porque somos seres naturalmente insatisfeitos. Entretanto, trata-se de satisfação em Cristo.

Satisfeito e saciado são sinônimos para o contexto apresentado, embora saibamos que saciedade e satisfação são estados transitórios. Em Cristo, entretanto, devemos exercitar nossa fé para que essa efemeridade seja convertida em eternidade em Cristo. 

Em um cântico antigo,  o eu lírico expressou sua experiência ao afirmar: "Com Cristo estou contente, / Ele me satisfaz / Com esse amor do Salvador / Agora estou contente, / Agora estou contente" (hino 395 CC). Para ele, o amor de Cristo traz ao coração dele alegria e satisfação. 

E o que sempre vem ao meu coração quando ouço a canção que abre essa publicação? 

Simples. A certeza de que preciso desenvolver ainda mais minha fé a ponto de afirmar, peremptoriamente, que Cristo me satisfaz.

 
Fernando Fernandes 

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Efeito inusitado


Há muitos anos, admirava pessoas que nadavam longos trechos. Seja enquanto eu almoçava no Sesc Taguatinga e observava os alunos da natação naquele vaivém ou quando desfrutava das minhas férias como casado em Guarapari e prestava atenção naqueles homens e mulheres que faziam a corda em relação ao litoral, no formato de um arco, da praia das Castanheiras e da prainha de Muquiçaba. 

Mesmo morando e trabalhando na mesma cidade daquele Sesc, não fui capaz de materializar aquela admiração náutica. 

Minha relação com a natação nunca foi além do que chamam de pedalar ao nadar, isto é, o nado instintivo sem a devida técnica. Ia à praia nos meus tempos de adolescente carioca e o que tinha era desafiar as ondas por meio do jacaré, ou seja, pegar carona na onda por cima ou por baixo dela. Ou ainda furar a onda no sentido contrário. Medo, medo, não havia. Como casado, mantinha a mesma relação com as ondas e com os jacarés de Guarapari, mas tinha de tirar tempo para minha amada, pois ela mal deixava as marolas chegarem à cintura.

Os anos se passaram ao mesmo tempo em que aquela admiração continuava. Entretanto, a passagem do tempo trouxe uma arrumação de ovos no cesto. E o melhor arranjo para aquele contexto foi deixar Taguatinga e morar em uma outra cidade da Capital. Dessa vez, em um apartamento.

O primeiro estranhamento no meu novo lar foi o fato de ter vivido minha vida em uma residência. Quantos objetos foram doados! Pelo menos, descobri que não precisava de nada daquilo. E o pouco que consegui trazer na mudança continua em caixas plásticas. Mas ainda me falta a devida coragem para me desfazer deles.

O segundo estranhamento no meu novo lar foi o reacender daquela admiração. Meu apartamento, em um andar alto, permite contemplar todo o parque aquático de um outro Sesc, vizinho ao terreno do condomínio em que resido. Foram seis meses de reacendimento ininterrupto. Desde as 6 até as 22 horas dos dias úteis, era possível contemplar os alunos da natação naquele vaivém sedutor.

Dessa vez, foi diferente. Em mais um almoço no Sesc Taguatinga com o mesmo colega de trabalho, contei-lhe sobre meu novo endereço, sobre o Sesc vizinho a mim e sobre a admiração antiga. Em uma reação inusitada e até mesmo grosseira, ele me disse, quase gritando: E o que você está esperando?

Enquanto eu precisei de mais de dez anos para transformar minha admiração em realidade, aquela que divide meu coração precisou de apenas sete dias para transformar a admiração que não existia em realidade. Ambos nos matriculamos nas aulas noturnas de natação deste Sesc.

Fernando Fernandes



quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Blandícias



Ainda era solteiro. 

Em uma das missões pela Força Aérea Brasileira na capital paulista, aproveitei uma das poucas noites de folga daquela semana e visitei uma igreja batista próxima de onde estava hospedado. Não me lembro do bairro, não me lembro do nome da igreja, não me lembro do ano. Mas me lembro do recado de Deus naquela noite. 

Há mais de trinta e três anos, não consigo me lembrar de como esse recado foi desenvolvido. A maioria esmagadora das pregações precisa de, pelo menos, vinte minutos para que o texto bíblico e o seu desdobramento sejam adequadamente apresentados para a correta assimilação por parte do ouvinte. Isso sem falar no preparo espiritual do pregador e do coração acessível da congregação.

Como eu não me lembro do desenvolvimento daquele  recado daquela noite, proporei uma possibilidade por aqui.

O recado era: Filho meu, se os pecadores, com blandícias, te quiserem tentar, não consintas. Não há como me esquecer daquela noite. Além da importância espiritual do recado, houve o aprendizado de uma palavra até então desconhecida para mim. Para não entregar tudo pronto, apresento algumas versões além da versão apresentada acima de Provérbios 1: 10 para decifrar esse mistério linguístico.


Filho meu, se os pecadores, com blandícias, te quiserem tentar, não consintas. (ARC)

Filho meu, se os pecadores querem seduzir-te, não o consintas. (ARA)

Meu filho, se pecadores tentarem seduzi-lo, não ceda! (NVI)

Filho meu, se os pecadores procuram te atrair com agrados, não aceites. (ACF)

Meu filho, se pecadores quiserem seduzi-lo, não permita que isso aconteça. (NVT)


Nas versões acima, temos os verbos tentar, seduzir e atrair com o mesmo sentido. Entretanto, apenas duas delas apresentam as locuções adverbiais com blandícias e com agrados para descrever o processo da sedução. Nesse sentido, somos tentados, seduzidos e atraídos pelas coisas que nos agradam. Mais do que aprender uma palavra nova, o importante é aprender como se dá o processo da tentação e como evitá-lo. 

Lá atrás, aprendi essa palavra. Atualmente, eu me frustro quando me dou conta de que fui seduzido pela minha própria concupiscência e pelas blandícias e agrados que se apresentaram a mim. Inclusive, no dia de ontem.

Mas a luta continua...

Fernando Fernandes

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Deus cuida de mim?

 




Deus cuida de mim
Kleber Lucas - 1999


Eu preciso aprender um pouco aqui
Eu preciso aprender um pouco ali
Eu preciso aprender mais de Deus
Porque Ele é quem cuida de mim

Se uma porta se fecha aqui
Outras portas se abrem ali
Eu preciso aprender mais de Deus
Porque Ele é quem cuida de mim

        Deus cuida de mim, na sombra das Suas asas
    Deus cuida de mim, eu amo a Sua casa
    E não ando sozinho não estou sozinho
    Pois sei Deus cuida de mim
    Deus cuida de mim, na sombra das Suas asas
    Deus cuida de mim, eu amo a Sua casa
    E não ando sozinho não estou sozinho
    Pois sei Deus cuida de mim

Se na vida não tem direção
É preciso tomar decisão
Eu sei que existe alguém que me ama
Ele quer me dar a mão

Se uma porta se fecha aqui
Outras portas se abrem ali
Eu preciso aprender mais de Deus
Porque Ele é quem cuida de mim

Na última atividade voltada para os casais da igreja onde congrego, houve um momento de descontração acompanhado de uma playlist musical. A primeira música executada prendeu minha atenção a ponto de refletir sobre seu conteúdo.

Intertextualidade é quando dos textos de diferentes autorias, de diferentes épocas ou de diferentes estilos e matizes dialogam entre si. Nos versículos iniciais dos Salmos 91, Davi afirmou categoricamente: O que habita no esconderijo do Altíssimo e descansa à sombra do Onipotente diz ao Senhor: Meu refúgio e meu baluarte, Deus meu, em quem confio. Muitos anos depois, o eu lírico da canção acima também afirmou: Deus cuida de mim, na sombra das Suas asas / Deus cuida de mim, eu amo a Sua casa / E não ando sozinho não estou sozinho / Pois sei Deus cuida de mim. Nesse sentido, o salmista e o poeta apresentaram as suas experiências pessoais tendo as expressões esconderijo do Altíssimo, sombra do Onipotente, refúgio, baluarte e asas para metaforizar uma outra expressão metafórica utilizada por Cristo quando Jerusalém rejeitou ser acolhido por Ele da mesma forma que a galinha ajunta seus pintinhos.

Se temos um Cristo que nos acolhe como a galinha ajunta seus pintinhos sob suas asas, o que nos falta para desfrutarmos dessa proteção? 

Aceitar o acolhimento de Cristo. Segundo a canção, o cuidado de Deus se manifesta por meio das diversas oportunidades que acontecem ou que deixam de acontecer na nossa caminhada. É como se o eu lírico afirmasse que os sucessos e fracassos vivenciados fizessem parte da manifestação do zelo de Cristo nele. Nesse contexto, basta crer que Cristo nos protege mesmo quando recebemos, principalmente, um não. 

Em outro trecho da canção, o cuidado de Deus se manifesta no eu lírico quando ele afirma que precisa aprender aqui e ali. No caso, se recusamos aprender com as experiências da vida, também recusamos a proteção de Deus. Só descansa sob as asas de Cristo quem abre o coração a Ele e se dispõe a aprender com as portas que se abrem e se fecham; e a aprender sobre o próprio Deus. 

Apesar da vida longa e abençoada que Deus me outorgou e apesar do zelo do Altíssimo na minha jornada, há muito o que aprender com Cristo a ponto de sentir, com todas as letras do universo, que Deus cuida de mim a ponto de desmistificar a ideia de que as coincidências da vida e nossa capacidade humana sejam os motores do meu sucesso.

Fernando Fernandes











    


quinta-feira, 23 de julho de 2026

Soft


Em um dia comum, como  qualquer outro dia sem chuvas e sem frio no Distrito Federal dos anos 1980, eu estava no plantão de 24 horas como Comandante da Guarda da Base Aérea de Brasília. Como outros terceiros-sargentos em início de carreira, concorríamos aos plantões nessa função. Entre outras obrigações, devíamos efetuar uma ronda em toda o quartel para checar a presença dos sentinelas nos diversos postos no período noturno. Sabendo dessa atribuição e no intuito de torná-la mais leve, decidi antecipadamente que degustaria umas balas ao longo da caminhada. Naquele anoitecer, após a divisão dos horários da ronda, o oficial responsável por toda a equipe facultou o uso da viatura. Coube a mim a ronda das 2h às 4h da manhã.  

Após dormir cerca de três horas, levantei-me. 

Já acordado e pronto, abri mão da viatura e decidi cumprir a inspeção a pé mesmo sabendo que precisaria de quase todo o tempo disponível. Dessa forma, apreciaria melhor a companhia das balas que havia comprado na véspera.

Toda a checagem dos postos transcorreu sem intercorrências. Desde o corpo da guarda ao prédio do comando, passando pelo primeiro esquadrão, o segundo esquadrão, o pátio de aeronaves, o terceiro esquadrão, o quarto esquadrão e o portão lateral leste, nada de extraordinário. Sentinelas a postos, uniformes alinhados, porte do armamento previsto e a apresentação regulamentar. Tudo, exatamente tudo, conforme esperado para uma noite comum.

Mas faltava um último esquadrão e cerca de 20 minutos para eu concluir minha conferência nos postos. Entretanto, foi nesse local onde a única ocorrência de todas as rondas, não só a minha como a de meus colegas que me antecederam e sucederam, aconteceu. Ao procurar o sentinela de um dos alojamentos, não o encontrei. Enquanto tentava localizá-lo, as balas me causaram um efeito colateral completamente inusitado para aquele instante. Como a caminhada até o corpo da guarda seria longa para aquele contexto, fiz uso do banheiro daquele alojamento, mesmo constrangido com os ruídos gerados e a possibilidade de algum soldado precisar do banheiro naqueles minutos apesar do alojamento e o banheiro estarem vazios. 

Ronda concluída, retornei ao posto inicial, refiz minha higiene, dormi mais um pouco e acordei no horário previsto para a conclusão das atividades daquele plantão quando um soldado apareceu à minha procura. Conversa vai, conversa vem, ele justificou a sua não permanência no posto daquele alojamento no horário em que passei por lá. Foi mais ou menos assim: "No horário em que o senhor passou por lá, eu tive um desarranjo intestinal e estava utilizando o banheiro daquele alojamento. Por isso, o senhor não me viu." Respondi-lhe: "tudo bem" e dispensei-o.

Mantive a ocorrência lançada no livro de serviço.

Fernando Fernandes

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Correndo atrás do prejuízo






A imagem de capa da revista Veja de 13 de março de 2026 apresenta o tempo fechado, escuro, raios, trovões e uma quantidade absurda de água a invadir o Congresso Nacional.  

Na metade inferior da capa, em caixa alta, a manchete da principal reportagem da revista UM ESCÂNDALO MASTER em que a palavra master foi empregada com duplo sentido, seja como sinônimo de algo grandioso ou seja para designar a instituição financeira responsável pelo escândalo.

Abaixo do título, em letras menores, o subtítulo Os segredos de Daniel Vorcaro apavoram autoridades dos Três Poderes e podem provocar um mar de lama de proporções épicas caso o banqueiro revele tudo o que sabe. A partir do resumo apresentado,  o que o leitor encontrará como desenvolvimento da reportagem. A metáfora visual da capa se confirma na expressão mar de lama nesse subtítulo.

Se não bastassem os escândalos do Mensalão (2005), da Lava Jato (2014), do Orçamento Secreto (2022), dos descontos não autorizados em milhares de beneficiários do INSS e outros que deixo de citar por questão de espaço, há mais esse relacionado a Daniel Vorcaro. Talvez sejam esses os motivos que fizeram Davi afirmar que todos se extraviaram e juntamente se corromperam; não há que faça o bem, não há nem um sequer (Salmos 14: 3 ARA). Caso você duvide da afirmação bíblica nesse contexto, quem sabe, a afirmação se gritar pega ladrão, não fica um meu irmão (música Reunião de Bacanas, do grupo Originais do Samba - anos 1980) seja mais convincente por também fazer referência à mesma situação.

Entretanto, há escândalos que nunca aparecerão na grande ou na pequena mídia porque eles são praticados em casa, no colégio, no trabalho, no transporte público etc. Quem nunca mentiu ao seu próximo, mesmo que seja aquela mentirinha que não faz mal? Quem nunca fez comentários negativos sobre alguém com a intenção de difamá-lo, mesmo que esses comentários fossem verdadeiros? Quem nunca agiu com usura, mesmo que pequena, em relação ao seu colega de trabalho? Há outros questionamentos que poderiam ser feitos aqui, mas não é necessário. A lista completa está no capítulo 15 do livro dos Salmos.

Se a canção contextualiza apenas a elite corrupta, Davi vai além. A leitura pura e simples do salmo citado no parágrafo anterior apresenta todas as condições para que estejamos com Deus na linhagem dos justos (Salmos 14: 5 ARA). O salmista não cita classe social, condição econômica, etnia, religião, preferência gastronômica, artística ou desportiva. Apenas abre o poema perguntando: Quem, Senhor, habitará no teu tabernáculo? Quem há de morar no teu santo monte? Nas respostas, apenas, os requisitos que atendem às questões.

Mais do que marcar o ponto nas reuniões eclesiásticas, mais do que discursos inflamados e mais do que doutrinas para lá de sofisticadas, Deus está interessado no nosso caráter e na nossa ética porque eles revelam a graça que um dia recebemos. Por essas e outras, continuo a correr atrás do prejuízo até que eu possa ficar onde estiver caso gritem pega ladrão. 



Fernando Fernandes



quinta-feira, 9 de julho de 2026

Agora, ó nosso Deus, que diremos depois disto?

 


Gostaria de propor uma relação intertextual entre dois personagens da literatura. 

O primeiro é José, da autoria de Carlos Drummond de Andrade. 

José

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?

e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio — e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

Publicado em 1942, José apresenta o quadro de quem está em um beco sem saída. Seja pela voz  de uma terceira pessoa ou pela voz do próprio José, o quadro é estarrecedor. As metáforas (cito algumas) - a festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou; está sem mulher, está sem discurso; o bonde não veio, o riso não veio; com a chave na mão, quer abrir a porta, não existe porta - apontam para as diversas oportunidades e vivências possíveis a qualquer pessoa; entretanto, impossíveis a José, outra metáfora. 

A estrutura condicional (conjunção condicional se e verbos no pretérito imperfeito do subjuntivo) dos versos da penúltima estrofe, José é desafiado a reagir - se você gritasse, se você gemesse, se você dormisse, se você morresse... - mas ele não morre, ele é duro. Em suma, José está encurralado.

Por fim, o poeta apresenta José (ou qualquer um de nós) completamente perdido e desorientado, sem qualquer tipo de companhia, sem qualquer apoio espiritual (sem teogonia - doutrina mística sobre o nascimento dos deuses) ou material. Com todo o quadro caótico apresentado no poema, José continua em marcha, isto é, continua sua luta a despeito de tudo e de todos. Ainda que completamente perdido.

O segundo personagem é Secanias, filho de Jeiel, um dos filhos de Elão, registrado no livro de Esdras. 

Esdras 9: 7 a 15 (ARA)

⁷ Desde os dias de nossos pais até hoje, estamos em grande culpa e, por causa das nossas iniquidades, fomos entregues, nós, os nossos reis e os nossos sacerdotes, nas mãos dos reis de outras terras e sujeitos à espada, ao cativeiro, ao roubo e à ignomínia, como hoje se vê.

⁸ Agora, por breve momento, se nos manifestou a graça da parte do Senhor, nosso Deus, para nos deixar alguns que escapem e para dar-nos estabilidade no seu santo lugar; para nos alumiar os olhos, ó Deus nosso, e para nos dar um pouco de vida na nossa servidão;

⁹ porque somos servos, porém, na nossa servidão, não nos desamparou o nosso Deus; antes, estendeu sobre nós a sua misericórdia, e achamos favor perante os reis da Pérsia, para nos reviver, para levantar a casa do nosso Deus, para restaurar as suas ruínas e para que nos desse um muro de segurança em Judá e em Jerusalém.

¹⁰ Agora, ó nosso Deus, que diremos depois disto? Pois deixamos os teus mandamentos,

¹¹ que ordenaste por intermédio dos teus servos, os profetas, dizendo: A terra em que entrais para a possuir é terra imunda pela imundícia dos seus povos, pelas abominações com que, na sua corrupção, a encheram de uma extremidade à outra.

¹² Por isso, não dareis as vossas filhas a seus filhos, e suas filhas não tomareis para os vossos filhos, e jamais procurareis a paz e o bem desses povos; para que sejais fortes, e comais o melhor da terra, e a deixeis por herança a vossos filhos, para sempre.

¹³ Depois de tudo o que nos tem sucedido por causa das nossas más obras e da nossa grande culpa, e vendo ainda que tu, ó nosso Deus, nos tens castigado menos do que merecem as nossas iniquidades e ainda nos deste este restante que escapou,

¹⁴ tornaremos a violar os teus mandamentos e a aparentar-nos com os povos destas abominações? Não te indignarias tu, assim, contra nós, até de todo nos consumires, até não haver restante nem alguém que escapasse?

¹⁵ Ah! Senhor, Deus de Israel, justo és, pois somos os restantes que escaparam, como hoje se vê. Eis que estamos diante de ti na nossa culpa, porque ninguém há que possa estar na tua presença por causa disto.

Esdras 10: 1 a 4 (ARA)

¹ Enquanto Esdras orava e fazia confissão, chorando prostrado diante da Casa de Deus, ajuntou-se a ele de Israel mui grande congregação de homens, de mulheres e de crianças; pois o povo chorava com grande choro.

² Então, Secanias, filho de Jeiel, um dos filhos de Elão, tomou a palavra e disse a Esdras: Nós temos transgredido contra o nosso Deus, casando com mulheres estrangeiras, dos povos de outras terras, mas, no tocante a isto, ainda há esperança para Israel.

³ Agora, pois, façamos aliança com o nosso Deus, de que despediremos todas as mulheres e os seus filhos, segundo o conselho do Senhor e o dos que tremem ao mandado do nosso Deus; e faça-se segundo a Lei.

⁴ Levanta-te, pois esta coisa é de tua incumbência, e nós seremos contigo; sê forte e age.

No trecho referente ao nono capítulo, Esdras revela sua atonitez ao constatar que os recém-libertos do cativeiro babilônico continuam na prática dos mesmos pecados que os haviam levado, anteriormente, ao mesmo cativeiro. 

Agora, ó nosso Deus, que diremos depois disto?  O questionamento de Esdras a Deus expõe toda a natureza carnal e pecaminosa do ser humano. Os judeus não aprenderam com o cativeiro, assim como nós não aprendemos com nossos erros apesar das inúmeras manifestações de perdão e de misericórdia da parte de Deus.

Tanto José como Esdras vivenciaram momentos em que a solução era inexistente. Enquanto José não sabia o que fazer embora não estivesse de braços cruzados a esperar pelo pior, Esdras estava compungido em função da vergonha causada pelos pecados da nação judaica pós-exílio. Ambos estavam cientes do caos; ambos não visualizavam uma saída. No segundo caso, entretanto, Secanias apresentou a Esdras a solução para o caos espiritual: dissolução dos casamentos mistos. 

Um plano foi traçado. Secanias apresentou a saída a Esdras mas cabia-lhe agir. Por fim, todos os que voltaram do exílio se comprometeram a se desfazer das suas mulheres estrangeiras e filhos gerados naquele contexto.

E agora, José? Agora, ó nosso Deus, que diremos depois disto? Dois questionamentos semanticamente equivalentes com diferentes desdobramentos. O ideal é que sempre estejamos conectados com Cristo para que as diversas saídas para os diferentes dilemas sempre estejam prontas a serem utilizadas. Pena que, na imensa maioria das vezes, agimos como José seguindo sem saber para onde sem ter um Secanias por perto.

Afinal, com Cristo no barco tudo vai muito bem, e passa o temporal. 

José tinha Cristo no seu barco?

Fernando Fernandes


 


quinta-feira, 2 de julho de 2026

Céu na terra ou terra no céu?










Minha casa 
Eyshila - 2005
 
Minha casa será uma casa de bênção
Minha casa será um pedaço do céu
Nela estarão reunidos adoradores
Que só exaltam ao Deus verdadeiro e fiel

Minha casa será reconhecida
Como um lugar de milagre e oração
Onde Jesus tem prazer em ficar
Onde o Espírito Santo habita
Onde há prosperidade, amor e vida

        Faça do meu lar, senhor
        Um lugar de harmonia
        Faça do meu coração
        Tua casa todo dia
        Esteja à vontade pra ficar
        E nunca mais partir
        Pois a casa que um dia te recebeu
        Nunca mais saberá viver sem ti

Minha casa será reconhecida
Como um lugar de milagre e oração
Onde Jesus tem prazer em ficar
Onde o Espírito Santo habita
Onde há prosperidade, amor e vida

Faça do meu lar, senhor
Um lugar de harmonia
Faça do meu coração
Tua casa todo dia
Esteja à vontade pra ficar
E nunca mais partir
Pois a casa que um dia te recebeu
Nunca mais saberá viver sem ti, Jesus
Pois a casa que um dia te recebeu
Nunca mais saberá viver sem ti

Em visita a uma igreja próxima da minha residência, dias depois de um encontro de casais promovido pela igreja onde congrego, a canção Minha casa foi entoada entre outros cânticos voltados para a família.

No cântico em primeira pessoa, a voz poética expressa inúmeros projetos para sua casa, seu lar. Para que tais planos se tornem reais, uma oração é feita a Deus nesse sentido. Entre outros projetos para seu lar, o eu lírico deseja que seu lar seja o lugar onde Jesus tenha prazer em ficar e onde o Espírito Santo venha a habitar.

Que características deve ter um lar onde Jesus tenha prazer em ficar e onde o Espírito Santo venha a habitar? A oração feita pelo eu lírico no estribilho (último conjunto de versos) fornece essas respostas.

O coração deve ser esse lar onde Cristo habita. Quando Cristo deu a sua vida na cruz por nós, ele exclamou "Deus meu, Deus, por que me abandonaste!" porque, naquele instante, houve a separação entre Pai e Filho em função dos pecados de toda a humanidade sobre seus ombros. Portanto, para que Cristo habite no coração de alguém, é mister que esse coração seja tão puro quanto o coração de uma criança.

Entretanto, não basta que Cristo habite nesse lar. É necessário que ele também se sinta à vontade. Isso só acontece quando esse hóspede é acolhido, abraçado e respeitado. Nesse contexto, julgamentos,  contestações e desrespeito só geram constrangimentos. Logo, só é possível a Cristo se sentir à vontade em um lar quando cada um nesse lar, realmente, entender quem Cristo é, seu ponto de vista sobre a vida, sobre o comportamento humano e sobre as relações familiares.

A consequência prática de termos Jesus a habitar de forma à vontade nesse lar significa que haverá  harmonia. No sentido pretendido pela canção, a harmonia  é entendida como a vivência dos preceitos bíblicos entre irmãos. O fruto do Espírito é, nesse contexto o grande balizador da tolerância entre os que vivem nesse lar. Dessa forma, o amor, a alegria, a paz, a longanimidade, a benignidade, a bondade, a fidelidade, a mansidão e o domínio próprio devem ser uma prática dentro do lar.

Para que o lar seja o lugar onde Jesus tenha prazer em ficar e onde o Espírito Santo venha a habitar, é imprescindível que, a partir da habitação de Cristo no coração, ele possa se sentir à vontade e, como consequência prática, a harmonia dentro do lar será uma constante.

Em havendo quaisquer deslizes que venham a impedir a presença de Cristo no lar, a confissão, o arrependimento, a oração e a reconciliação devem ser o antídoto. Caso contrário, o lar será, apenas, um amontoado de pessoas que partilham do mesmo teto e, eventualmente, dividem despesas.

Fernando Fernandes






quinta-feira, 25 de junho de 2026

Caminhos





Na leitura de hoje, conversaremos sobre algumas figuras de linguagem tendo como base o primeiro capítulo do livro dos Salmos. Seu título é: Os justos e os ímpios.

Salmos 1: 1 ao 6 (ARA)

¹ Bem-aventurado o homem que não anda no conselho dos ímpios, não se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores.

² Antes, o seu prazer está na lei do Senhor, e na sua lei medita de dia e de noite.

³ Ele é como árvore plantada junto a corrente de águas, que, no devido tempo, dá o seu fruto, e cuja folhagem não murcha; e tudo quanto ele faz será bem-sucedido.

⁴ Os ímpios não são assim; são, porém, como a palha que o vento dispersa.

⁵ Por isso, os perversos não prevalecerão no juízo, nem os pecadores, na congregação dos justos.

⁶ Pois o Senhor conhece o caminho dos justos, mas o caminho dos ímpios perecerá.

Uma grande antítese permeia todo o poema ao trazer duas escolhas possíveis ao ser humano. Uma em relação ao caminho da justiça e outra em relação ao caminho da  impiedade. 

Para traçar as características inerentes ao justo e ao ímpio, o salmista abre o poema por meio de uma gradação por meio dos verbos andar, deter e assentar-se para demonstrar as diferenças na intensidade da nossa reação frente ao pecado. No contexto, a observância das ações dos ímpios se dá enquanto o justo apenas anda por ali. A situação ficaria mais séria caso esse justo se detivesse, isto é, se ele interrompesse sua caminhada e parasse para os observar. Para piorar de vez, mais do que andar e parar, se ele se assentasse ou passasse a fazer parte daquele contexto. Os comportamentos pecaminosos expressos por conselho dos ímpios, caminho dos pecadores e roda dos escarnecedores são sinônimas e exemplificam o pleonasmo, quando usamos palavras diferentes para expressar uma mesma ideia.

Na sequência, o salmista apresenta o prazer do justo por meio de uma hipérbole e de uma antítese, ambas ao mesmo tempo. Meditar na lei do Senhor de dia e de noite é exagero retórico no sentido de que nossos pensamentos e ações são múltiplos embora o salmista se esforce para priorizar as coisas celestiais. A escolha dos antônimos dia e noite possui também caráter retórico. 

Uma nova característica do justo é apresentada por meio da metáfora de uma árvore plantada junto a corrente de águas. Nós não somos árvore, diria uma criança. Entretanto, se estivermos plantados em Cristo, daremos o fruto do Espírito. Em contraponto à fertilidade do justo, os ímpios são apresentados como a palha que o vento dispersa. A metáfora traz a ideia de insipiência, fragilidade e impotência da palha frente ao vento que a dispersa. Dessa forma, é impossível ao ímpio conviver com o justo, seja no plano terreno ou celestial. Árvore e palha apresentam significações opostas, o que também exemplifica a figura antítese.

Por fim, o salmista retoma a antítese principal para revelar a quem Deus conhece o caminho e onde chegar. O recado do salmista é bem simples e direto. Como a imagem que abre essa leitura, temos de decidir entre dois caminhos.

Que caminho você escolheu? Eu já tenho o meu.

Fernando Fernandes




quinta-feira, 18 de junho de 2026

Que encontro!

 


Em conversa com minha esposa no dia de ontem, dia dos namorados, lembrei-me de uma história de amor para lá de especial. 

No vigésimo nono capítulo do livro de Gênesis, o narrador apresenta o encontro, a paixão, o amor e a união entre Jacó e Raquel. Por mais que os casamentos fossem arranjados naquele contexto, Jacó respondeu ao seu tio Labão que o serviria por sete anos e, em troca, teria Raquel por esposa pelo simples fato de Jacó a amar.

Quem me lê e já se casou, sabe o que quero dizer. O tempo psicológico se difere do tempo cronológico exatamente nesse contexto. Algo que ansiamos faz com que o tempo fique congelado; ao mesmo tempo, vivências prazerosas fazem que anos pareçam dias. 

Imagine a ansiedade de Jacó em ter Raquel nos braços após 2.555 dias de serviço! Cada dia deve ter sido extremamente longo. Cada um mais duro do que o outro. Imagine, agora, a última hora do expediente do último dia de serviço e a certeza de que Raquel seria sua no dia seguinte. Foram dias na esperança de um só dia. 

A festa de casamento aconteceu e Jacó, finalmente, com a amada nos braços. Entretanto, questões culturais sabotaram seu carpe diem. No dia seguinte, após a lua de mel, Jacó se deu conta de que ele vivera aquela noite de amor com a irmã da noiva, Lia. Ao questionar seu sogro, um detalhe foi apresentado a ele: as filhas mais velhas se casam antes das filhas mais novas. Afinal, o  pai, usando de cautela, em lugar de Raquel lhe deu a Lia.

Labão, seu tio materno e sogro, propôs mais sete anos de serviço para que Raquel lhe fosse entregue. Jacó concordou. A vontade de ter Raquel nos braços e todo aquele tempo extra de trabalho e ansiedade foram mais fortes do que a rasteira que tomara do tio. Na verdade,  Jacó não servia ao tio, servia a ela.

Mais sete anos se foram.  Após quatorze anos, Jacó teve Raquel nos braços. 

Luís Vaz de Camões (1525-1580) escreveu um soneto para ressaltar esse belo amor de Jacó por Raquel. Se o texto bíblico deixa nas entrelinhas esse sentimento - uma declaração de amor e serviço pelo do dobro do tempo inicialmente combinado - o poema o exalta nos seus quatorze versos decassílabos distribuídos em dois quartetos e dois tercetos e nas rimas alternadas. 

Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prêmio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe deu a Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Assim lhe era negada a sua pastora,
Como se não a tivera merecida;

Começou a servir outros sete anos,
Dizendo: Mais servira, se não fora,
Para tão longo amor, tão curta a vida.



Por que Jacó aceitou ser passado para traz por seu tio em relação a Raquel? De forma mais simples, Jacó reconheceu que seu sentimento por Raquel era tão grande que valeria a pena servir ao pai por ela por mais sete anos, por mais setenta anos, por mais setenta vezes sete anos. Por outras letras, mais servira, se não fora, para tão longo amor, tão curta a vida. 

Que a postura de Jacó, apesar de toda a sua fragilidade de caráter, sirva de inspiração para que possamos lutar pelo que ansiamos. 

Fernando Fernandes

quinta-feira, 11 de junho de 2026

As margens ou às margens?











 

Apesar de exemplos de margens de rodovia e placas orientadoras da autoria do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes, nosso bate-papo de hoje girará em torno dos dois primeiros versos do Hino Nacional Brasileiro, conforme registrado no site oficial do Planalto.

 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/hino.htm

Ouviram do Ipiranga as margens plácidas 
de um povo heróico o brado retumbante,
E o sol da liberdade, em raios fúlgidos,
Brilhou no céu da pátria nesse instante.


O questionamento é: nos dois primeiros versos do Hino, qual é o sujeito? Sim, o sujeito das aulas de Língua Portuguesa. Pense um pouco, chegue a uma conclusão. Só depois, continue a leitura.

Se a resposta foi as margens plácidas do Ipiranga, sendo margens o núcleo, você acertou.

Explicando...

Ouviram do Ipiranga as margens plácidas de um povo heróico o brado retumbante

em ordem direta (sujeito, verbo, complemento), temos:

As margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heróico.



Se a expressão as margens fosse grafada às margens (com acento grave), a pergunta seria a mesma: nos dois primeiros versos do Hino, qual seria o sujeito? Pense e responda. Só depois, continue a leitura.

Se a resposta foi sujeito indeterminado, você acertou.

Explicando...

Ouviram do Ipiranga às margens plácidas de um povo heróico o brado retumbante

em ordem direta (sujeito, verbo, complemento), temos:

Ouviram o brado retumbante de um povo heróico às margens plácidas do Ipiranga



Se preferir, temos também a opção com o adjunto adverbial de lugar deslocado com o uso da vírgula:

Ás margens plácidas do Ipiranga,  ouviram o brado retumbante de um povo heróico






Nesse caso específico dos dois primeiros versos do Hino Nacional, o uso ou não do acento grave foi determinado pelo autor da letra em função da mensagem pretendida. Joaquim Osório Duque Estrada quis que as margens se comportassem como seres vivos (prosopopeia), que elas estivessem presentes  e que fossem testemunhas auditivas da história. Portanto, as margens ouviram o brado retumbante de um povo heróico.

Com o emprego do acento grave em às margens, o significado desses versos é outro. As margens não ouviram nada. Apenas foi o local onde se ouviu o brado retumbante. Quem ouviu, verdadeiramente? Não é possível determinar. Mas o brado foi ouvido.

A mesma situação acontece com as placas do DNIT em relação às margens da rodovia. A intenção do Departamento é normatizar a construção de edificações às margens das rodovias federais. Por isso, a redação correta é: Antes de construir às margens da rodovia, consulte o DNIT. Se o acento grave é retirado, a significação muda completamente. É como se o órgão normatizasse a criação de margens, construção de margens nas rodovias. Não é o caso. Rodovias possuem margens, mesmo que não urbanizadas, digamos assim. 

Para fechar o raciocínio, o sentido pretendido pelo enunciado determinará o emprego ou não do acento grave nas duas situações apresentadas. Entretanto, sua regra básica continua em vigor. O acento grave (`) indica a fusão da preposição a com o artigo definido a. Isto é: a + a = à.



Fernando Fernandes