quinta-feira, 18 de junho de 2026

Que encontro!

 


Em conversa com minha esposa no dia de ontem, dia dos namorados, lembrei-me de uma história de amor para lá de especial. 

No vigésimo nono capítulo do livro de Gênesis, o narrador apresenta o encontro, a paixão, o amor e a união entre Jacó e Raquel. Por mais que os casamentos fossem arranjados naquele contexto, Jacó respondeu ao seu tio Labão que o serviria por sete anos e, em troca, teria Raquel por esposa pelo simples fato de Jacó a amar.

Quem me lê e já se casou, sabe o que quero dizer. O tempo psicológico se difere do tempo cronológico exatamente nesse contexto. Algo que ansiamos faz com que o tempo fique congelado; ao mesmo tempo, vivências prazerosas fazem que anos pareçam dias. 

Imagine a ansiedade de Jacó em ter Raquel nos braços após 2.555 dias de serviço! Cada dia deve ter sido extremamente longo. Cada um mais duro do que o outro. Imagine, agora, a última hora do expediente do último dia de serviço e a certeza de que Raquel seria sua no dia seguinte. Foram dias na esperança de um só dia

A festa de casamento aconteceu e Jacó, finalmente, com a amada nos braços. Entretanto, questões culturais sabotaram seu carpe diem. No dia seguinte, após a lua de mel, Jacó se deu conta de que ele vivera aquela noite de amor com a irmã da noiva, Lia. Ao questionar seu sogro, um detalhe foi apresentado a ele: as filhas mais velhas se casam antes das filhas mais novas. Afinal, o  pai, usando de cautela, em lugar de Raquel lhe deu a Lia.

Labão, seu tio materno e sogro, propôs mais sete anos de serviço para que Raquel lhe fosse entregue. Jacó concordou. A vontade de ter Raquel nos braços e todo aquele tempo extra de trabalho e ansiedade foram mais fortes do que a rasteira que tomara do tio. Na verdade,  Jacó não servia ao tio, servia a ela.

Mais sete anos se foram.  Após quatorze anos, Jacó teve Raquel nos braços. 

Luís Vaz de Camões (1525-1580) escreveu um soneto para ressaltar esse belo amor de Jacó por Raquel. Se o texto bíblico deixa nas entrelinhas esse sentimento - uma declaração de amor e serviço pelo do dobro do tempo inicialmente combinado - o poema o exalta nos seus quatorze versos decassílabos distribuídos em dois quartetos e dois tercetos e nas rimas alternadas. 

Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prêmio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe deu a Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Assim lhe era negada a sua pastora,
Como se não a tivera merecida;

Começou a servir outros sete anos,
Dizendo: Mais servira, se não fora,
Para tão longo amor, tão curta a vida.



Por que Jacó aceitou ser passado para traz por seu tio em relação a Raquel? De forma mais simples, Jacó reconheceu que seu sentimento por Raquel era tão grande que valeria a pena servir ao pai por ela por mais sete anos, por mais setenta anos, por mais setenta vezes sete anos. Por outras letras, mais servira, se não fora, para tão longo amor, tão curta a vida

Que a postura de Jacó, apesar de toda a sua fragilidade de caráter, sirva de inspiração para que possamos lutar pelo que ansiamos. 

Fernando Fernandes

Nenhum comentário:

Postar um comentário