sexta-feira, 24 de novembro de 2023

Casa no campo






Professor, podemos pintar no quadro branco? Prontamente, cedi a Ana e aos colegas algumas canetas para quadro branco.

O que seria mais um daqueles momentos de relaxamento ao final do Ensino Médio se tornou em uma grata surpresa.

Na minha mente, uma antiga canção de Elis Regina:

Eu quero uma casa no campo

Onde eu possa compor muitos rocks rurais
E tenha somente a certeza
Dos amigos do peito e nada mais

Onde eu possa ficar do tamanho da paz
E tenha somente a certeza
Dos limites do corpo e nada mais

E, nessa casa do campo, o eu lírico deseja projetar, presenciar, viver, realizar:

Eu quero carneiros e cabras
Pastando solenes no meu jardim
Eu quero o silêncio das línguas cansadas
Eu quero a esperança de óculos
E meu filho de cuca legal
Eu quero plantar e colher com a mão
A pimenta e o sal

E essa casa no campo, do tamanho ideal, pau a pique e sapê

Onde eu possa plantar meus amigos
Meus discos e livros, e nada mais
Onde eu possa plantar meus amigos
Meus discos, meus livros e nada mais
Onde eu possa plantar meus amigos
Meus discos e livros, e nada mais

Enquanto o desenho era construído a várias mãos, fiquei imaginando o que eu gostaria de realizar na casa desenhada.

Sinceramente, não consegui ir além de me imaginar descendo no escorregador e de observar os pequenos animais a beber água. 

Mas consegui me imaginar vivendo o meu carpe diem naquele locus amoenos. 

Pena que não tenho tantas palavras quanto Elis Regina na canção homônima.

Simples.

Não esperava aquele presente naquela manhã de novembro de 2023.

Fernando Fernandes

quinta-feira, 1 de junho de 2023

Natureza

 


Há momentos 

que os dois necessitam 

 ser vigiados. 


Acontece até na natureza.


Os dois se olhando

e vigiando o

espaço

que lhes pertencem.


Acontece até na natureza.


Os dois se estudando

e avaliando

as possibilidades

futuras.


Acontece até na natureza.


O cuidado um pelo outro começa nas 

pequenas facetas!


Assim somos nós:

Somos vigiados

Nos vigiamos

Vigiamos nosso espaço

Estudamos nosso futuro.

Nos cuidamos.


Acontece até na natureza.






domingo, 19 de março de 2023

Ferreira Gullar e Carlos Drummond de Andrade: uma intertextualidade

 




Como dois e dois são quatro (Ferreira Gullar)



Como dois e dois são quatro
Sei que a vida vale a pena
Embora o pão seja caro
E a liberdade pequena


Como teus olhos são claros
E a tua pele, morena
como é azul o oceano
E a lagoa, serena


Como um tempo de alegria
Por trás do terror me acena
E a noite carrega o dia
No seu colo de açucena


- sei que dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
mesmo que o pão seja caro
e a liberdade pequena.






No meio do caminho (Drummond)


No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.


Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.


Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.




Breve comentário

Intertextualidade significa diálogo entre textos. E esse diálogo pode acontecer de diferentes maneiras. No nosso caso, não faz diferença se um texto motivou um novo texto ou não. Se essa intertextualidade é percebida pelo leitor, está valendo. Fiquemos com a última hipótese.

O poema 1 parte da certeza de que a vida vale a pena de ser vivida, independente das várias dificuldades enfrentadas. Lá, são citadas o alto preço do pão e a pouca liberdade, metáforas para diferentes obstáculos que surgem ao longo da nossa permanência neste mundo. E essa certeza é comparada a outras certezas por meio do termo comparador como, de forma explícita ou não: uma certeza matemática (verso 1), quatro certezas de cunho pessoal (versos 5 a 8) e duas certezas de que os eventos são cíclicos (versos 9 a 12). A última estrofe retoma a estrofe inicial, com ênfase na certeza de a vida deve ser vivida intensamente.

O poema 2 segue uma linha de raciocínio similar, ao enfatizar a tribulação, o obstáculo, a dificuldade. Entretanto, o eu lírico não deixa claro se houve superação ou não, se houve derrota ou não. Apenas enfatiza a lembrança dessa pedra no seu caminho. E a estratégia adotada pelo eu lírico para deixar bem clara essa marca psicológica na sua caminhada foi a inversão dos termos das orações e a repetição de palavras.

Por fim, as respectivas vozes poéticas expressam diferentes abordagens a partir das dificuldades da vida. O primeiro prefere enfatizar a necessidade de seguirmos em frente; o segundo, enfatiza a dificuldade. Entretanto, ambos também enfatizam as dificuldades da vida. Tanto é que pão, liberdade pequena e pedra - ao aproximar os dois poemas neste bate-papo - são sinônimos e, ao mesmo tempo, metáfora para tal. Da mesma forma, vida e caminho.

E a imagem acima de uma planta que consegue vencer a dureza e o calor do asfalto? Essa pequena análise de intertextualidade entre a imagem e os poemas, deixo para você, leitor.

Nesse pequeno exercício interpretativo, duas diferentes abordagens são sugeridas a mim e a você, leitor. Diante das tempestades da vida, devemos direcionar nossa atenção a elas ou buscar na nossa alma incentivos para superá-las. Na sua opinião, qual é a melhor escolha?

Eu já fiz a minha.

Fernando Fernandes

sábado, 25 de fevereiro de 2023

Esperanças sempre se renovam

 

Março de 2007


Junho de 2007


Setembro de 2009


Dezembro de 2011

Fevereiro  de 2023



Hoje, fevereiro de 2023, sempre que passo por esse jardim, não consigo me esquecer de como ele era no passado. Antes, um toco de eucalipto queimado. Árvore antiga que teve seu fim, como tudo na natureza. 

Felizmente, esperanças sempre se renovam.

A partir de 2006,  o professor Moraes (hoje ele trabalha em outra escola) comprou a seguinte briga, no bom sentido: reflorestar nosso colégio. E um desses espaços correspondia a atual pracinha entre a sala de informática, o bloco A e o bloco C do Centro de Ensino Médio Taguatinga Norte. Observe como foi o desenvolvimento da pracinha, a partir das datas citadas (data de criação informada nas propriedades)

Foi trabalho árduo. Vários alunos, de forma completamente voluntária e sem a contrapartida de nota,  acreditaram na proposta daquele professor. 

Atualmente, há tanta sombra produzida que as salas de aula ao redor são arrefecidas. E, inclusive, há bancos para que possamos descansar. Se você conhece o local, concordará comigo.

O escritor bíblico, quando afirmou 'quero trazer à memória o que me pode dar esperança' (Lamentações de Jeremias capítulo 3, versículo 21 - ARA) em um contexto de extrema dificuldade, aflição e pranto, deixou, sem saber, um conselho para mim e para você. 

Sempre que pedras aparecerem no nosso caminho e você tenha vontade de desistir, faça uma varredura dentro do seu coração e busque algo que possa servir de incentivo para seguir em frente.

No meu caso, entre outras experiências motivadoras, a história desse jardim me impulsiona. 

Felizmente, esperanças sempre se renovam.

Fernando Fernandes
    
       






Impressões


Publicado originalmente no blog pherrocha.blogspot.com 
em 22 de junho de 2021, também de minha autoria. 
Lá, há outras postagens.

     Ainda pelas minhas andanças pela Asa Sul, em um dos momentos da fuga de casa em meio à pandemia que assola a cada um de nós, deparei-me com o cenário acima. Um órgão público do GDF, entre a edificação e o estacionamento.
     Que vontade eu tinha de estar ali. Antes, porém, registrei a cena digitalmente. “Que mico!”, Pensei. Hesitei. Por fim, desfrutei meu carpe diem em um daqueles assentos.
     'Carpe Diem' e 'Locus Amoenos' - você deve se lembrar - são expressões latinas utilizadas na literatura para traduzir a experiência de viver seu sonho em um local aprazível. Exatamente o que a mídia propaga ao divulgar suas viagens paradisíacas e, por extensão de      significado, no desejo de posse de determinado bem (automóvel, celular, etc).
Por outro lado, lembrei-me dos versos de Vinícius de Morais: Como a criança que vagueia o canto / Ante o mistério da amplidão suspensa / Meu coração é um vago de acalanto / Berçando versos de saudade imensa. Sim. É o vazio de algo necessário na alma do eu lírico ou algo que precisa preencher esse 'vago de acalanto'.
     Por fim, sem nada combinado de véspera, enviei a imagem acima para o WhatsApp da minha esposa e pedi-lhe que respondesse à seguinte pergunta: O que vem ao seu coração a partir da imagem?
      E a sua impressão sobre os dois bancos em ângulo de 90 graus chegou até mim, palavras transcrevo:

“O silêncio ambiental mostra como dói não ver
 e ouvir a voz de 
outra pessoa. 
Muitas vezes, ficamos presos 
a padrões que 
a sociedade nos impõe e nos esquecemos 
do mais importante que é 
o relacionamento saudável entre nós, 
seres humanos. 
Com a pandemia, estamos nos sentindo assim, 
como a imagem dos bancos seriados 
por uma grama ou uns passarinhos que aparecem 
para alegrar o ambiente que, um dia era cheio 
de calor humano. 
E hoje, resta só o vazio”.



       O que vem ao seu coração a partir da imagem?

Fernando Fernandes

sábado, 11 de fevereiro de 2023

Sessenta anos

 



Há dez anos, chequei bem cedinho para fotografar você.

Naquele nove de abril de dois mil e treze, você estava divina. Não é qualquer dama que chegava aos cinquenta com tanta fulgurância.

Dez anos se foram. Outras pedras apareceram no seu caminho. Mas você sabia que a vida valeria mesmo a pena embora o pão fosse caro e a liberdade pequena

Lembra-se do professor Wilson, seu filho mais ilustre? Hoje, ele continua em nossos corações e, inclusive, empresta o seu nome ao nosso auditório. E das dores causadas pela pandemia do Coronavírus? E quando a Meire partiu? Quanta dor! Quanta insegurança! Você sobreviveu! Só mesmo quem  acompanhou você nesses últimos tempos foi capaz de compreender tão grande sofrimento e como você se superou.

Mas você também vivenciou inúmeras alegrias. Quantos estudantes seguiram novos rumos em sua vida graças à sua influência, aos seus conselhos e, porque não, aos seus puxões de orelhas.

Sessenta anos. Para alguns, metáfora para assentos preferenciais em transporte público, não obrigatoriedade de encarar filas, cabelos brancos, musculatura em processo de enfraquecimento, olhos em processo de perda de brilho, flacidez na pele, etc.

Sessenta anos. Para mim, a certeza de que sua juventude é ímpar. O verde que há em você revela todo o seu esplendor. Homens e mulheres que corporificam você são inebriados da garra inerente ao seu caráter.

Sessenta anos. 

Eternos anos.


Fernando Fernandes


Persistência



Um gato

sem sapato.


A atenção a quem entra.

A atenção de quem entra.


Uma aula 

sem celular

sem conversa paralela

sem piadinhas

sem soninhos.


Qualquer semelhança

é mera coincidência.


Fernando Fernandes


 

segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

Honra


O que há dentro dessa velha 

bolsa de couro além de ferramentas antigas?


Muita hora extra;

muito sono perdido;

mãos calejadas;

aborrecimentos.


A certeza da volta para casa;

do alimento futuro;

do sorriso da esposa;

da missão cumprida.


A chegada a Brasília;

casos sobre elevadores;

a conquista da casa própria;

viagens de carro com a família.


A benção de ter quatro filhos;

dois genros e duas noras de quebra;

sou um destes.

Que honra!



Fernando Fernandes 






terça-feira, 29 de novembro de 2022

Revivendo a infância

      Há muito tempo, buscava na internet algo que marcara incrivelmente a minha infância. 

     Dessa vez, bingo! No canal LMR VINTAGE, especificamente no vídeo em que é apresentada a descrição e a revisão de um aparelho de televisão antigo cujo link está abaixo.

https://www.youtube.com/watch?v=7vD0cEgMujM   

     Foi neste link que tive a grata surpresa de reencontrá-la. Sim, uma Standard Electric com portas e dois alto-falantes na parte inferior do tubo de imagem, como a apresentada no canal. Lá, há uma revisão feita e o aparelho em funcionamento. Minha tia possuía outra igual, porém para ser colocada em uma mesa. O único alto-falante ficava atrás do logotipo SE, abaixo do botão do volume e acima dos três botões em linha. Nesse caso, não havia a moldura inferior, onde ficam os dois alto-falantes da versão com portas.

     Quanto a mim, foi gratificante reencontrá-la. Não é, certamente, o exato exemplar, no sentido de número de série que possuíamos na década de 60. Não importa. Ousaria afirmar: mesma marca, modelo. Infelizmente, não possuo fotos. 

     Cinquenta e cinco anos se foram. Entretanto, a lembrança ainda está viva. Foram muitos filmes como: Perdidos no Espaço e similares quanto a aventuras; desenhos como o do Popeye. 

     Em relação à chegada da primeira televisão colorida em minha casa, não consigo me lembrar da marca, layout, modelo, etc. Mas a SE da imagem abaixo...





CANAL LMR VINTAGE - TV ANTIGA STANDARD ELECTRIC 1964 DE MÓVEL VALVULADA 

Fernando Fernandes 


Escola Cândido Campos - 1975


 


     Hoje, novembro de 2022, são quarenta e sete anos desde que concluí meu antigo ginasial  (atual nono ano do ensino fundamental) na escola Cândido Campos (escola municipal - RJ), inaugurada por mim e pelos demais alunos que a estrearam. Ainda possuo o chaveiro acima. Em termos emocionais, poucas lembranças ainda povoam meu coração. Mas há três em especial que serviram de exemplo. 


A) Devolutiva de uma prova de Português - Como de praxe, alunos sempre estamos ansiosos por saber cada nota que tiramos nas diversas provas escolares. Dessa vez, não foi diferente. Ao receber minha prova corrigida, a alegria por ter tirado uma nota acima da média. Entretanto, ao somar os itens corrigidos individualmente, entristeci. Não tirara o que estava na parte superior do papel. Deveria ser uma nota vermelha. Mesmo triste, dirigi-me até a professora. Ela me ouviu, conferiu a correção e, realmente, eu tinha razão. Mas ela disse. Vou manter sua nota como está como prêmio em função da sua honestidade. A alegria voltou.

B)  Devolutiva de uma prova de Matemática, dias depois do caso acima - Da mesma forma, recebi a devolutiva de uma prova de Matemática e a nota, também baixa. Mas o professor havia feito alguns comentários orais antes da devolutiva. Dentre eles, a necessidade de que os cálculos estivessem feitos na própria prova. Como eu havia feito os cálculos, fui até o professor. Sem pestanejar, ele afirmou com todas as letras que aqueles cálculos foram escritos acima do cabeçalho naqueles minutos como tentativa de aumento de nota. Eu já estava dando meia-volta quando as meninas que se sentavam próximas à mesa dele contaram a ele o que ocorrera comigo dias antes, como descrito no episódio da prova de Português. Aí, o professor resolveu crer em mim. A nota foi corrigida, para cima. Novo sorriso.

C) Tarefa musical mesclada com desenho - A professora ministrava música e, em dada aula, pediu que duplas de alunos ouvissem determinada melodia e, em seguida, produzissem um desenho. Entre essas duplas, eu e o José Nelson. Atividade cumprida. Atividade entregue pelo meu parceiro de dupla. A professora me chamou à sua mesa e pediu-me para ler mentalmente o que estava na folha em que o desenho deveria estar feito. Não me recordo literalmente de cada palavra, mas o que meu colega de dupla escrevera era mais ou menos assim: por causa do meu colega do lado, não pude me concentrar para elaborar o desenho. Após lido, a professora me perguntou se eu havia compreendido o recado, no que lhe respondi afirmativamente. Por fim, ela mandou-me sentar. Apenas isso. 

D) Outras lembranças, não tanto de cunho pedagógico. A ida e volta a pé de casa ao colégio com o José Nelson; algumas caronas de volta em um Aero-Willys do avô da Márcia: a própria Márcia me dando reforço em Matemática, pois faltara quase um semestre letivo por conta de viagem da família; as meninas Ana Cristina, Ana Maria, Elisabeth e Teresa além da própria Márcia (todas do Valqueire); a Maria do Socorro (morava próximo à Praça Seca); o João (morava próximo à escola Carlos de Laet) e o Giovani (Estrada do Fontinha); duas irmãs (não me lembro dos nomes) que moravam a uns 20 metros da escola; São flashes, apenas. 

E) Uma lembrança de cunho administrativo ou disciplinar -  Quando da transferência da Escola José Joaquim de Queiroz Júnior para a Escola Cândido Campos, fomos orientados a utilizar sempre uma folha plástica para cobrir a carteira (mesa de madeira) para não arranhá-la. Essa cor deveria ser padronizada por turma. Tempos depois, os banheiros no último andar estavam lotados de mobiliário danificado.

F) Alguns nomes - O senhor Flávio, a secretária Catarina, a diretora Norma. Alguns professores: Regina, Hélio, Maria Lúcia, Alzenir. Há outros, mas...

     Por fim, torço, espero, anseio, desejo ardentemente que os flashes de memória que tenho agora não aconteçam com cada leitor. Com os recursos atuais (Facebook, WhatsApp, Instagran e afins), creio ser impossível tais lampejos. 


Fernando Fernandes

domingo, 13 de novembro de 2022

Inspirando, respirando, renovando

 



Simples flores

Imensa poesia

inspiração renovada

Vida na vida


Fruto de incentivo

     Há algum tempo, havia desafiado a aquela que divide minha vida há trinta anos a produzir pequenos textos a partir de imagem. 

     Abaixo, quero dividir algo que ela produziu a partir de uma foto tirada há uns dez dias, no Hospital das Forças Armadas, em Brasília-DF.



A árvore que um dia foi criança, hoje é uma adulta, 
bela e formosa. Seus galhos, ramos, folhas e troncos 
produzem em sua copa um contraste de luz e escuridão. 
O sustento de todo esse espetáculo damos às raízes 
profundas que sempre são regadas pelo nosso amor, 
amizade e companheirismo.