quinta-feira, 25 de junho de 2026

Caminhos





Na leitura de hoje, conversaremos sobre algumas figuras de linguagem tendo como base o primeiro capítulo do livro dos Salmos. Seu título é: Os justos e os ímpios.

Salmos 1: 1 ao 6 (ARA)

¹ Bem-aventurado o homem que não anda no conselho dos ímpios, não se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores.

² Antes, o seu prazer está na lei do Senhor, e na sua lei medita de dia e de noite.

³ Ele é como árvore plantada junto a corrente de águas, que, no devido tempo, dá o seu fruto, e cuja folhagem não murcha; e tudo quanto ele faz será bem-sucedido.

⁴ Os ímpios não são assim; são, porém, como a palha que o vento dispersa.

⁵ Por isso, os perversos não prevalecerão no juízo, nem os pecadores, na congregação dos justos.

⁶ Pois o Senhor conhece o caminho dos justos, mas o caminho dos ímpios perecerá.

Uma grande antítese permeia todo o poema ao trazer duas escolhas possíveis ao ser humano. Uma em relação ao caminho da justiça e outra em relação ao caminho da  impiedade. 

Para traçar as características inerentes ao justo e ao ímpio, o salmista abre o poema por meio de uma gradação por meio dos verbos andar, deter e assentar-se para demonstrar as diferenças na intensidade da nossa reação frente ao pecado. No contexto, a observância das ações dos ímpios se dá enquanto o justo apenas anda por ali. A situação ficaria mais séria caso esse justo se detivesse, isto é, se ele interrompesse sua caminhada e parasse para os observar. Para piorar de vez, mais do que andar e parar, se ele se assentasse ou passasse a fazer parte daquele contexto. Os comportamentos pecaminosos expressos por conselho dos ímpios, caminho dos pecadores e roda dos escarnecedores são sinônimas e exemplificam o pleonasmo, quando usamos palavras diferentes para expressar uma mesma ideia.

Na sequência, o salmista apresenta o prazer do justo por meio de uma hipérbole e de uma antítese, ambas ao mesmo tempo. Meditar na lei do Senhor de dia e de noite é exagero retórico no sentido de que nossos pensamentos e ações são múltiplos embora o salmista se esforce para priorizar as coisas celestiais. A escolha dos antônimos dia e noite possui também caráter retórico. 

Uma nova característica do justo é apresentada por meio da metáfora de uma árvore plantada junto a corrente de águas. Nós não somos árvore, diria uma criança. Entretanto, se estivermos plantados em Cristo, daremos o fruto do Espírito. Em contraponto à fertilidade do justo, os ímpios são apresentados como a palha que o vento dispersa. A metáfora traz a ideia de insipiência, fragilidade e impotência da palha frente ao vento que a dispersa. Dessa forma, é impossível ao ímpio conviver com o justo, seja no plano terreno ou celestial. Árvore e palha apresentam significações opostas, o que também exemplifica a figura antítese.

Por fim, o salmista retoma a antítese principal para revelar a quem Deus conhece o caminho e onde chegar. O recado do salmista é bem simples e direto. Como a imagem que abre essa leitura, temos de decidir entre dois caminhos.

Que caminho você escolheu? Eu já tenho o meu.

Fernando Fernandes




quinta-feira, 18 de junho de 2026

Que encontro!

 


Em conversa com minha esposa no dia de ontem, dia dos namorados, lembrei-me de uma história de amor para lá de especial. 

No vigésimo nono capítulo do livro de Gênesis, o narrador apresenta o encontro, a paixão, o amor e a união entre Jacó e Raquel. Por mais que os casamentos fossem arranjados naquele contexto, Jacó respondeu ao seu tio Labão que o serviria por sete anos e, em troca, teria Raquel por esposa pelo simples fato de Jacó a amar.

Quem me lê e já se casou, sabe o que quero dizer. O tempo psicológico se difere do tempo cronológico exatamente nesse contexto. Algo que ansiamos faz com que o tempo fique congelado; ao mesmo tempo, vivências prazerosas fazem que anos pareçam dias. 

Imagine a ansiedade de Jacó em ter Raquel nos braços após 2.555 dias de serviço! Cada dia deve ter sido extremamente longo. Cada um mais duro do que o outro. Imagine, agora, a última hora do expediente do último dia de serviço e a certeza de que Raquel seria sua no dia seguinte. Foram dias na esperança de um só dia

A festa de casamento aconteceu e Jacó, finalmente, com a amada nos braços. Entretanto, questões culturais sabotaram seu carpe diem. No dia seguinte, após a lua de mel, Jacó se deu conta de que ele vivera aquela noite de amor com a irmã da noiva, Lia. Ao questionar seu sogro, um detalhe foi apresentado a ele: as filhas mais velhas se casam antes das filhas mais novas. Afinal, o  pai, usando de cautela, em lugar de Raquel lhe deu a Lia.

Labão, seu tio materno e sogro, propôs mais sete anos de serviço para que Raquel lhe fosse entregue. Jacó concordou. A vontade de ter Raquel nos braços e todo aquele tempo extra de trabalho e ansiedade foram mais fortes do que a rasteira que tomara do tio. Na verdade,  Jacó não servia ao tio, servia a ela.

Mais sete anos se foram.  Após quatorze anos, Jacó teve Raquel nos braços. 

Luís Vaz de Camões (1525-1580) escreveu um soneto para ressaltar esse belo amor de Jacó por Raquel. Se o texto bíblico deixa nas entrelinhas esse sentimento - uma declaração de amor e serviço pelo do dobro do tempo inicialmente combinado - o poema o exalta nos seus quatorze versos decassílabos distribuídos em dois quartetos e dois tercetos e nas rimas alternadas. 

Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prêmio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe deu a Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Assim lhe era negada a sua pastora,
Como se não a tivera merecida;

Começou a servir outros sete anos,
Dizendo: Mais servira, se não fora,
Para tão longo amor, tão curta a vida.



Por que Jacó aceitou ser passado para traz por seu tio em relação a Raquel? De forma mais simples, Jacó reconheceu que seu sentimento por Raquel era tão grande que valeria a pena servir ao pai por ela por mais sete anos, por mais setenta anos, por mais setenta vezes sete anos. Por outras letras, mais servira, se não fora, para tão longo amor, tão curta a vida

Que a postura de Jacó, apesar de toda a sua fragilidade de caráter, sirva de inspiração para que possamos lutar pelo que ansiamos. 

Fernando Fernandes

quinta-feira, 11 de junho de 2026

As margens ou às margens?











 

Apesar de exemplos de margens de rodovia e placas orientadoras da autoria do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes, nosso bate-papo de hoje girará em torno dos dois primeiros versos do Hino Nacional Brasileiro, conforme registrado no site oficial do Planalto.

 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/hino.htm

Ouviram do Ipiranga as margens plácidas 
de um povo heróico o brado retumbante,
E o sol da liberdade, em raios fúlgidos,
Brilhou no céu da pátria nesse instante.


O questionamento é: nos dois primeiros versos do Hino, qual é o sujeito? Sim, o sujeito das aulas de Língua Portuguesa. Pense um pouco, chegue a uma conclusão. Só depois, continue a leitura.

Se a resposta foi as margens plácidas do Ipiranga, sendo margens o núcleo, você acertou.

Explicando...

Ouviram do Ipiranga as margens plácidas de um povo heróico o brado retumbante

em ordem direta (sujeito, verbo, complemento), temos:

As margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heróico.



Se a expressão as margens fosse grafada às margens (com acento grave), a pergunta seria a mesma: nos dois primeiros versos do Hino, qual seria o sujeito? Pense e responda. Só depois, continue a leitura.

Se a resposta foi sujeito indeterminado, você acertou.

Explicando...

Ouviram do Ipiranga às margens plácidas de um povo heróico o brado retumbante

em ordem direta (sujeito, verbo, complemento), temos:

Ouviram o brado retumbante de um povo heróico às margens plácidas do Ipiranga



Se preferir, temos também a opção com o adjunto adverbial de lugar deslocado com o uso da vírgula:

Ás margens plácidas do Ipiranga,  ouviram o brado retumbante de um povo heróico






Nesse caso específico dos dois primeiros versos do Hino Nacional, o uso ou não do acento grave foi determinado pelo autor da letra em função da mensagem pretendida. Joaquim Osório Duque Estrada quis que as margens se comportassem como seres vivos (prosopopeia), que elas estivessem presentes  e que fossem testemunhas auditivas da história. Portanto, as margens ouviram o brado retumbante de um povo heróico.

Com o emprego do acento grave em às margens, o significado desses versos é outro. As margens não ouviram nada. Apenas foi o local onde se ouviu o brado retumbante. Quem ouviu, verdadeiramente? Não é possível determinar. Mas o brado foi ouvido.

A mesma situação acontece com as placas do DNIT em relação às margens da rodovia. A intenção do Departamento é normatizar a construção de edificações às margens das rodovias federais. Por isso, a redação correta é: Antes de construir às margens da rodovia, consulte o DNIT. Se o acento grave é retirado, a significação muda completamente. É como se o órgão normatizasse a criação de margens, construção de margens nas rodovias. Não é o caso. Rodovias possuem margens, mesmo que não urbanizadas, digamos assim. 

Para fechar o raciocínio, o sentido pretendido pelo enunciado determinará o emprego ou não do acento grave nas duas situações apresentadas. Entretanto, sua regra básica continua em vigor. O acento grave (`) indica a fusão da preposição a com o artigo definido a. Isto é: a + a = à.



Fernando Fernandes

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Quanta libra já pesou.



Se você não conhece o significado da expressão que dá título a essa publicação, então você é a pessoa apropriada para excursionar na história que será apresentada.

HINO DO FLAMENGO
Lamartine Babo
 
Uma vez Flamengo, sempre Flamengo
Flamengo sempre eu hei de ser
É meu maior prazer vê-lo brilhar
Seja na terra, seja no mar
Vencer, vencer, vencer!
Uma vez Flamengo, Flamengo até morrer!

Na regata, ele me mata
Me maltrata, me arrebata
Que emoção no coração!
Consagrado no gramado
Sempre amado, o mais cotado
Nos Fla-Flus é o Ai, Jesus!

Eu teria um desgosto profundo
Se faltasse o Flamengo no mundo
Ele vibra, ele é fibra
Muita libra já pesou
Flamengo até morrer eu sou! 


Sobre o Flamengo, o hino mais conhecido e apresentado acima não é o hino oficial. Este (Flamengo, Flamengo, tua glória é lutar / Flamengo, Flamengo, campeão de terra e mar ... ) é, sim,  o hino oficial, tendo sua letra e música composta pelo ex-goleiro rubro-negro Paulo Magalhães e entoado pela primeira vez em 1920.

Já aquele, o hino mais conhecido e objeto do nossa pequena reflexão, possui relação estreita com o carnaval de 1945, pois tinha sido uma marchinha composta por Lamartine Babo. Sobre esse letrista, ele também compôs várias outras marchinhas ligadas ao futebol. Entre outros, o hino do Vasco da Gama (Vamos todos cantar de coração...), o hino do Fluminense (Sou tricolor de coração,...) o hino do Botafogo (Botafogo, Botafogo, campeão desde 1910...).

Considerando o vocabulário e a mensagem em si, o teor da canção em análise se aproxima muito do Romantismo, escola literária que predominou na Europa na primeira metade do século XIX.  A exaltação de valores de uma determinada instituição e a profissão de fé de quem faz a exaltação são os seus principais traços literários. O eu lírico exalta os valores do clube ao afirmar sobre o brilho nas diversas competições terrestres e aquáticas; e expressa sua fidelidade ao clube até morrer. 

Como gênero literário, poemas recitados ou cantados que exaltam algo, alguém ou uma instituição são denominados de hino. Se a canção exaltasse os valores bucólicos ou valores ligados à natureza, teríamos uma écloga; se a canção exaltasse a perda e a melancolia, teríamos uma elegia.

Em relação aos recursos semânticos, temos as seguintes figuras de linguagem:

Antitese - na primeira estrofe, ao afirmar que que seu clube brilha seja na terra, seja no mar. Seja nos esportes terrestres, seja nos esportes náuticos, o clube lhe proporciona orgulho.

Hipérbole - no final da primeira estrofe, quando o eu lírico afirma 'Uma vez Flamengo, Flamengo até morrer' no sentido de ele continuará a admirar o clube, independente dos resultados obtidos nas diversas competições. 

Paronomásia, aliteração e assonância - Na segunda estrofe, há o uso intenso de palavras semanticamente independentes entre si com grande semelhança sonora e gráfica como em regata, mata, arrebata e maltrata; emoção e coração; consagrado, gramado, amado, cotado; Fla-Flus, Jesus. Nesse caso fica difícil separar a paronomásia (palavras independentes com grafia semelhante - falar e falhar) da aliteração (repetição de fonema consonantal - o rato roeu a roupa do rei de Roma) e da assonância (repetição de fonemas vocálicos - as rimas em geral). Da mesma forma, a terceira estrofe apresenta essa situação em ele vibra, ele é fibra, muita libra já pesou. Em todos os casos, o compositor consegue trazer uma mesma semelhança gráfica e sonora nessas palavras de diferentes classes gramaticais. Na primeira ocorrência, regata é substantivo, as demais são verbos da primeira conjugação flexionados na terceira pessoa do presente do indicativo. Nas demais ocorrências, deixo para você essa mini pesquisa morfológica,

Em relação ao título desta publicação, temos o seguinte. No penúltimo verso da canção, Muita libra já pesou, a palavra libra é relacionada a uma unidade de medida em que os barcos do remo eram pesados antes e depois de uma competição para que se garantisse a lisura ao longo do processo. Nesse sentido, o verso também afirma que o clube já competiu inúmeras vezes (e ganhou também) nos esportes náuticos. 

A escolha pelo hino do Flamengo para a proposição de um bate-papo literário não se deu por devoção ao clube, mas sim pela enorme torcida que o admira e a riqueza literária da canção que o exalta. Nesse sentido, é uma homenagem.

Fernando Fernandes