Na publicação de hoje, gostaria de partilhar com vocês algumas considerações sobre o conceito de erro dentro do campo da gramática normativa. Para tal, consideraremos dois textos: uma situação hipotética em um julgamento e o poema Pronominais, da autoria de Oswald de Andrade.
Texto 1
Considere a situação hipotética em uma audiência que envolva juiz, advogados e as partes envolvidas em um processo. Por fim, o magistrado, lê sua sentença da seguinte forma:
". . . o réu deveria agir com menas precipitação nesse caso.
Mesmo assim, decido pela sua absolvição. Se cuide.
Audiência encerrada."
Texto 2
Poema pronominais (1925)
Oswald de Andrade
Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro.
Há erros que estigmatizam o usuário da língua. No primeiro exemplo, há duas transgressões à norma culta. Você há de concordar que a primeira ocorrência - menas - é menos aceitável do que a segunda ocorrência - Se cuide -. No primeiro evento, é mais difícil tolerar alguém com instrução superior troque o menos por menas. Por outro lado, haveria maior tolerância caso esse deslize ocorresse dentro de um grupo com pouca instrução acadêmica.
Por outro lado, há erros que são tão naturais que não estigmatizam, não discriminam o usuário da língua. Pensemos no caso da próclise em início de enunciados. A preferência pelos brasileiros pelo uso da próclise é tão óbvia que Oswald de Andrade, em seu poema Pronominais, abordava esse choque entre o que se usa (me dá um cigarro - as falas do bom negro e do bom branco da nação brasileira) e o que é prescrito pela gramática normativa (dê-me um cigarro - fala do professor, do aluno e do mulato sabido - que tinham acesso ao estudo). No nosso estudo de caso, a oração Se cuide foi iniciada com pronome oblíquo. A gramática, definitivamente, proíbe que as orações sejam iniciadas com pronome oblíquo. Dessa forma, o juiz deveria dizer Cuide-se. Porém, essa transgressão é muitíssimo mais tolerada, inclusive, pelas pessoas de maior estudo. É nesse sentido que determinados erros gramaticais não discriminam o falante. É como se existissem categorias de erros gramaticais e categorias de quem comete esses erros. Daí, a flutuação no conceito de erro. Assim, quando o juiz diz Se cuida ao réu como puxão de orelhas, certamente esse erro de colocação pronominal não soaria tão vexatório aos presentes quanto à troca de menos por menas.
Para recordar - verbo dar no imperativo afirmativo
Dá tu
Dê você
Demos nós
Dai vós
Deem vocês
A belíssima canção que você lerá a seguir surgiu no início do século XXI. Nela, o eu lírico se autoanalisa e se dá conta de que nada é perante Deus. Conclui que precisa ser perdoado e clama para que seu coração seja transformado a ponto de se igualar ao coração do Mestre e conseguir agir com o próximo da mesma forma que Cristo age conosco: amando, olhando e perdoando.
Confira a letra. Aproveite para meditar na mensagem.
Coração Igual ao Teu (2001)
Diante do Trono
Se Tu olhares, Senhor, pra dentro de mim
Nada encontrarás de bom
Mas um desejo eu tenho de ser transformado
Preciso tanto do Teu perdão
Dá-me um novo coração
Dá-me um coração igual ao Teu, meu Mestre
Dá-me um coração igual ao Teu
Coração disposto a obedecer
Cumprir todo o Teu querer
Dá-me um coração igual ao Teu
Se Tu olhares, Senhor, pra dentro de mim
Nada encontrarás de bom
Mas um desejo eu tenho de ser transformado
Preciso tanto do Teu perdão
Dá-me um novo coração
Dá-me um coração igual ao Teu, meu Mestre
Dá-me um coração igual ao Teu
Coração disposto a obedecer
Cumprir todo o Teu querer
Dá-me um coração igual ao Teu
Dá-me um coração igual ao Teu, meu Mestre
Dá-me um coração igual ao Teu
Coração disposto a obedecer
Cumprir todo o Teu querer
Dá-me um coração igual ao Teu
Ensina-me a amar o meu irmão
A olhar com Teus olhos
Perdoar com o Teu perdão
Enche-me com Teu Espírito
Endireita os meus caminhos
Ó Deus, dá-me um novo coração
Enche-me com Teu Espírito
Endireita os meus caminhos
Ó Deus, dá-me um novo coração
Dá-me um coração igual ao Teu, meu Mestre
Dá-me um coração igual ao Teu
Coração disposto a obedecer
Cumprir todo o Teu querer
Dá-me um coração igual ao Teu
Dá-me um coração igual ao Teu, meu Mestre
Dá-me um coração igual ao Teu
Coração disposto a obedecer
Cumprir todo o Teu querer
Dá-me um coração igual ao Teu
Dá-me um coração igual ao Teu
Coração disposto a obedecer
Cumprir todo o Teu querer
Dá-me um coração igual ao Teu
A despeito de a maioria dos usuários da língua optarem pela forma proclítica em início de enunciados (me dá, me ensina, me enche), foi feita a opção pela ênclise (dá-me, ensina-me, enche-me) por parte da equipe musical. A forma proclítica é tão natural e óbvia para o brasileiro que você já ouviu ou disse algo mais ou menos assim em uma lanchonete: Por favor, me vê dois pasteis e um caldo. Por outro lado, a ênclise soa um tanto artificial apesar de ser a forma preconizada pela gramática. Nesse sentido, a letra está de acordo com a norma culta de forma geral, e em particular no uso dos pronomes oblíquos e da flexão dos verbos no modo imperativo.
Dá-me um novo coração igual ao Teu, meu Mestre ou Me dá um novo coração igual ao Teu, meu Mestre? Se a sua oração é sincera, se o seu desejo é viver conforme a estatura do Mestre, se o seu clamor é agir com o próximo da mesma forma que Cristo age conosco e em nós, não importa. Acertando ou errando a posição do pronome em relação ao verbo, Deus ouvirá e atenderá seu desejo por um coração de carne (Ezequiel 11: 19 e Ezequiel 36: 26 - ARA).
Se essa discussão for trazida para o contexto de culto público, onde todos ouvem a oração feita por um dos membros e a mensagem proferida pelo anjo da igreja, teremos outra discussão. Afinal, Tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais?
Fernando Fernandes