quarta-feira, 20 de maio de 2026

Um lugar de poesia e não um lugar para poesia II





Quinze anos se passaram quando estive aqui pela primeira vez a convite do nosso anfitrião. Naquela oportunidade, pude registrar minhas impressões sobre aquela experiência para lá de especial, conforme o endereço eletrônico abaixo cujo título é Um lugar de poesia e um lugar para poesia. 

https://pherrocha.blogspot.com/p/um-lugar-de-poesia-e-nao-um-lugar-para.html?m=1

Pois é. Quinze anos se foram. Mas algo se fez diferente dessa vez, ainda que o local continue a ser um lugar de poesia e não um lugar para poesia.

Óbvio que o Recanto dos... sofreu atualizações de ordem paisagística, arquitetônica, tecnológica e humana nesse tempo. Árvores se desenvolveram ou foram sacrificadas por algum motivo; edificações foram criadas, ampliadas, reformadas ou extintas; equipamentos foram atualizados, acrescentados, suprimidos ou substituídos; jovens amadureceram; crianças adolesceram; novos rebentos chegaram a aquele paraíso em forma de chácara.

Mas havia algo diferente. Muito diferente. Nosso eterno pai não estava entre nós para coroar aquela - e sua - comemoração natalícia, como em anos anteriores. Dias antes, aprouve ao Pai dar-lhe um novo Recanto dos... para administrar.

Para externar minha saudade, escolhi a foto que abre essa homenagem. Certamente nosso eterno amigo usufruiu momentos de alegria naquele oásis. E foi naquele refúgio que ele, bondosamente, permitiu-me folgar aquela manhã junto aos meus dois netos.

Na prática, aquele sábado transcorreu como se nosso eterno acolhedor estivesse presente. Degustamos do tradicional caldo-de-cana com pastel, saboreamos um estupendo churrasco e prestamos um culto de agradecimento a Deus pela vida daquele que sempre nos adotou ao longo dos anos naquele Recanto.

Com a devida licença poética e teológica, se eu pudesse, abraçaria a linha de pensamento de Carlos Drummond de Andrade registrada em um de seus poemas ao questionar o porquê de perdemos nossas mães, conforme lavrado no poema Para Sempre:

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.

Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
– mistério profundo –
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.


Se você pudesse, seguiria a mesma proposta de  Drummond  em relação ao nosso  anfitrião, eterno pai, eterno amigo e eterno acolhedor?


Fernando Fernandes


 






terça-feira, 19 de maio de 2026

Dá-me... ou me dá...?







Na publicação de hoje, gostaria de partilhar com vocês algumas considerações sobre o conceito de erro dentro do campo da gramática normativa. Para tal, consideraremos dois textos: uma situação hipotética em um julgamento e o poema Pronominais, da autoria de Oswald de Andrade. 



Texto 1
Considere a situação hipotética em uma audiência que envolva juiz, advogados e as partes envolvidas em um processo.  Por fim, o magistrado, lê sua sentença da seguinte forma:

  ". . . o réu deveria agir com menas precipitação nesse caso. 
Mesmo assim, decido pela sua absolvição. Se cuide. 
Audiência encerrada."

Texto 2
Poema pronominais (1925)
Oswald de Andrade

Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro.

Há erros que estigmatizam o usuário da língua. No primeiro exemplo, há duas transgressões à norma culta. Você há de concordar que a primeira ocorrência - menas - é menos aceitável do que a segunda ocorrência - Se cuide -.  No primeiro evento, é mais difícil tolerar alguém com instrução superior troque o menos por menas. Por outro lado, haveria maior tolerância caso esse deslize ocorresse dentro de um grupo com pouca instrução acadêmica. 

Por outro lado, há erros que são tão naturais que não estigmatizam, não discriminam o usuário da língua. Pensemos no caso da próclise em início de enunciados. A preferência pelos brasileiros pelo uso da próclise é tão óbvia que Oswald de Andrade, em seu poema Pronominais, abordava esse choque entre o que se usa (me dá um cigarro - as falas do bom negro e do bom branco da nação brasileira) e o que é prescrito pela gramática normativa (dê-me um cigarro - fala do professor, do aluno e do mulato sabido - que tinham acesso ao estudo). No nosso estudo de caso, a oração Se cuide foi iniciada com pronome oblíquo. A gramática, definitivamente, proíbe que as orações sejam iniciadas com pronome oblíquo. Dessa forma, o juiz deveria dizer Cuide-se. Porém, essa transgressão é muitíssimo mais tolerada, inclusive, pelas pessoas de maior estudo. É nesse sentido que determinados erros gramaticais não discriminam o falante. É como se existissem categorias de erros gramaticais e categorias de quem comete esses erros. Daí, a flutuação no conceito de erro. Assim, quando o juiz diz Se cuida ao réu como puxão de orelhas, certamente esse erro de colocação pronominal não soaria tão vexatório aos presentes quanto à troca de menos por menas


Para recordar - verbo dar no imperativo afirmativo

Dá tu
Dê você
Demos nós
Dai vós
Deem vocês

 
A belíssima canção que você lerá a seguir surgiu no início do século XXI. Nela, o eu lírico se autoanalisa e se dá conta de que nada é perante Deus. Conclui que precisa ser perdoado e clama para que seu coração seja transformado a ponto de se igualar ao coração do Mestre e conseguir agir com o próximo da mesma forma que Cristo age conosco: amando, olhando e perdoando. 

Confira a letra. Aproveite para meditar na mensagem.

Coração Igual ao Teu (2001)
Diante do Trono

Se Tu olhares, Senhor, pra dentro de mim
Nada encontrarás de bom
Mas um desejo eu tenho de ser transformado
Preciso tanto do Teu perdão
Dá-me um novo coração

Dá-me um coração igual ao Teu, meu Mestre
Dá-me um coração igual ao Teu
Coração disposto a obedecer
Cumprir todo o Teu querer
Dá-me um coração igual ao Teu

Se Tu olhares, Senhor, pra dentro de mim
Nada encontrarás de bom
Mas um desejo eu tenho de ser transformado
Preciso tanto do Teu perdão
Dá-me um novo coração

Dá-me um coração igual ao Teu, meu Mestre
Dá-me um coração igual ao Teu
Coração disposto a obedecer
Cumprir todo o Teu querer
Dá-me um coração igual ao Teu

Dá-me um coração igual ao Teu, meu Mestre
Dá-me um coração igual ao Teu
Coração disposto a obedecer
Cumprir todo o Teu querer
Dá-me um coração igual ao Teu

Ensina-me a amar o meu irmão
A olhar com Teus olhos
Perdoar com o Teu perdão

Enche-me com Teu Espírito
Endireita os meus caminhos
Ó Deus, dá-me um novo coração
Enche-me com Teu Espírito
Endireita os meus caminhos
Ó Deus, dá-me um novo coração

Dá-me um coração igual ao Teu, meu Mestre
Dá-me um coração igual ao Teu
Coração disposto a obedecer
Cumprir todo o Teu querer
Dá-me um coração igual ao Teu

Dá-me um coração igual ao Teu, meu Mestre
Dá-me um coração igual ao Teu
Coração disposto a obedecer
Cumprir todo o Teu querer
Dá-me um coração igual ao Teu
Dá-me um coração igual ao Teu

Coração disposto a obedecer
Cumprir todo o Teu querer
Dá-me um coração igual ao Teu


A despeito de a maioria dos usuários da língua optarem pela forma proclítica em início de enunciados (me dá, me ensina, me enche), foi feita a opção pela ênclise (dá-me, ensina-me, enche-me) por parte da equipe musical. A forma proclítica é tão natural e óbvia para o brasileiro que você já ouviu ou disse algo mais ou menos assim em uma lanchonete: Por favor, me vê dois pasteis e um caldo. Por outro lado, a ênclise soa um tanto artificial apesar de ser a forma preconizada pela gramática. Nesse sentido, a letra está de acordo com a norma culta de forma geral, e em particular no uso dos pronomes oblíquos e da flexão dos verbos no modo imperativo.

Dá-me um novo coração igual ao Teu, meu Mestre ou Me dá um novo coração igual ao Teu, meu Mestre? Se a sua oração é sincera, se o seu desejo é viver conforme a estatura do Mestre, se o seu clamor é agir com o próximo da mesma forma que Cristo age conosco e em nós, não importa. Acertando ou errando a posição do pronome em relação ao verbo, Deus ouvirá e atenderá seu desejo por um coração de carne (Ezequiel 11: 19 e Ezequiel 36: 26 - ARA).

Se essa discussão for trazida para o contexto de culto público, onde todos ouvem a oração feita por um dos membros e a mensagem proferida pelo anjo da igreja, teremos outra discussão. Afinal, Tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais?

Fernando Fernandes



segunda-feira, 18 de maio de 2026

Logo eu?

 







Você já se deparou com alguma situação em que a expressão logo eu veio à mente? Provavelmente, sim. Ouso afirmar que a experiência se deu em um momento negativo. Quem sabe, você foi o escalado para cumprir hora extra. Quem sabe, você foi premiado com um pneu furado. Entretanto, gostaria de apresentar um contexto em que logo eu representa um prêmio, um presente, uma graça, um favor imerecido.

Para tal, peço que você leia atentamente e reflita na canção abaixo. Por ora, apenas leia. Em outro momento, ouça-a.

O Amor de Deus (Rachel Novaes e Marcelo Novaes)

Graça sobre graça, recebi
E da plenitude, renasci
Quando atraído, me encontrei
No amor de Deus

Viva e poderosa salvação
Luz que me alcançou na escuridão
Todo meu pecado se apagou
No amor de Deus

Logo eu, um pobre pecador
Logo eu, tão fraco e tão devedor
Logo eu, de graça recebi o amor de Deus
Logo eu, finito e carnal
Logo eu, diante de um Deus imortal
Logo eu, de graça recebi o amor de Deus

Graça sobre graça, recebi
E da plenitude, renasci
Quando atraído, me encontrei
No amor de Deus

Viva e poderosa salvação
Luz que me alcançou na escuridão
Todo meu pecado se apagou
No amor de Deus

Logo eu, um pobre pecador
Logo eu, tão fraco e tão devedor
Logo eu, de graça recebi o amor de Deus
Logo eu, finito e carnal
Logo eu, diante de um Deus imortal
Logo eu, de graça recebi o amor de Deus

O amor de Deus é rico em benefícios
O amor de Deus não mede sacrifícios
Dos braços desse amor, recebo o perdão
Comprado por Jesus

O amor de Deus é puro e consciente
Como as manhãs, é firme e constante
Que se entregou na cruz e a morte derrotou
O amor de Jesus

Logo eu, um pobre pecador
Logo eu, tão fraco e tão devedor
Logo eu, de graça recebi o amor de Deus (o amor de Deus)
Logo eu, finito e carnal
Logo eu, diante de um Deus imortal
Logo eu, de graça recebi o amor de Deus (o amor de Deus)
O amor de Deus (amor de Deus)

A canção apresenta um eu lírico (voz poética) que compartilha sua experiência com Deus ao seu interlocutor (cada um de nós, ouvintes ou leitores). E exatamente na antítese formada pela adjetivação feita a Deus em relação ao seu amor (rico em benefícios / que não mede sacrifícios / é perdoador / é puro e consciente / firme e constante / mais forte do que a morte) versus a condição do eu lírico (pobre pecador / fraco e tão devedor / finito e carnal).

E a expressão logo eu, como se dá o lado bom quando, normalmente, ela é usada como forma de reclamação ou ponderação negativa? 

Segundo a Bíblia de Estudo Almeida, graça é a bondade excepcional de Deus para com os seres humanos, na condição de pecadores, para tornar possível o seu perdão e salvação.

Por outro lado, Efésios 2: 4 a 9 afirma: Mas Deus, sendo rico em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou, estando nós ainda mortos em nossos delitos, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos), e nos ressuscitou juntamente com ele, e com ele nos fez sentar nas regiões celestes em Cristo Jesus, para mostrar nos séculos vindouros a suprema riqueza da sua graça, pela sua bondade para conosco em Cristo Jesus. Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não vem das obras, para que ninguém se glorie (ARA). Quando o eu lírico se dá conta da sua pequenez perante o Deus eterno a ponto de entender que só por meio do sacrifício de Cristo na cruz é que a salvação pode ser obtida meio da graça ou favor imerecido, a expressão logo eu é perfeitamente lógica como atitude positiva de surpresa.

Da mesma forma, o rei Davi se sentiu imerecedor das misericórdias de Deus pouco antes da passagem do trono para seu filho Salomão. Ao término da organização de todo o material para que seu filho pudesse iniciar e concretizar a construção do templo, Davi se deu conta do quanto ele conseguiu com as ofertas voluntárias, tanto dele como da população em geral. Nas palavras do cronista: Mas quem sou eu, e quem é o meu povo, para que pudéssemos fazer ofertas tão voluntariamente? Porque tudo vem de ti, e do que é teu to damos. (I Crônicas 29: 14 - ARA)

Em Davi, a expressão logo eu também se faz presente com as palavras quem sou eu / quem é o meu povo ao se surpreender com o resultado prático daquela oferta, pois ele o o povo se sentiam não merecedores de tanta graça.

O verbete logo possui inúmeros papéis gramaticais. Todavia, seu valor exclamativo de valor positivo dificilmente acontece. Mas acontece.

Por fim, que atitudes devo tomar, que comportamentos devo ter para que eu possa ser surpreendido positivamente por algo que não mereço, seja no plano espiritual, seja no plano humano?


Fernando Fernandes