domingo, 19 de março de 2023

Ferreira Gullar e Carlos Drummond de Andrade: uma intertextualidade

 




Como dois e dois são quatro (Ferreira Gullar)



Como dois e dois são quatro
Sei que a vida vale a pena
Embora o pão seja caro
E a liberdade pequena


Como teus olhos são claros
E a tua pele, morena
como é azul o oceano
E a lagoa, serena


Como um tempo de alegria
Por trás do terror me acena
E a noite carrega o dia
No seu colo de açucena


- sei que dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
mesmo que o pão seja caro
e a liberdade pequena.






No meio do caminho (Drummond)


No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.


Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.


Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.




Breve comentário

Intertextualidade significa diálogo entre textos. E esse diálogo pode acontecer de diferentes maneiras. No nosso caso, não faz diferença se um texto motivou um novo texto ou não. Se essa intertextualidade é percebida pelo leitor, está valendo. Fiquemos com a última hipótese.

O poema 1 parte da certeza de que a vida vale a pena de ser vivida, independente das várias dificuldades enfrentadas. Lá, são citadas o alto preço do pão e a pouca liberdade, metáforas para diferentes obstáculos que surgem ao longo da nossa permanência neste mundo. E essa certeza é comparada a outras certezas por meio do termo comparador como, de forma explícita ou não: uma certeza matemática (verso 1), quatro certezas de cunho pessoal (versos 5 a 8) e duas certezas de que os eventos são cíclicos (versos 9 a 12). A última estrofe retoma a estrofe inicial, com ênfase na certeza de a vida deve ser vivida intensamente.

O poema 2 segue uma linha de raciocínio similar, ao enfatizar a tribulação, o obstáculo, a dificuldade. Entretanto, o eu lírico não deixa claro se houve superação ou não, se houve derrota ou não. Apenas enfatiza a lembrança dessa pedra no seu caminho. E a estratégia adotada pelo eu lírico para deixar bem clara essa marca psicológica na sua caminhada foi a inversão dos termos das orações e a repetição de palavras.

Por fim, as respectivas vozes poéticas expressam diferentes abordagens a partir das dificuldades da vida. O primeiro prefere enfatizar a necessidade de seguirmos em frente; o segundo, enfatiza a dificuldade. Entretanto, ambos também enfatizam as dificuldades da vida. Tanto é que pão, liberdade pequena e pedra - ao aproximar os dois poemas neste bate-papo - são sinônimos e, ao mesmo tempo, metáfora para tal. Da mesma forma, vida e caminho.

E a imagem acima de uma planta que consegue vencer a dureza e o calor do asfalto? Essa pequena análise de intertextualidade entre a imagem e os poemas, deixo para você, leitor.

Nesse pequeno exercício interpretativo, duas diferentes abordagens são sugeridas a mim e a você, leitor. Diante das tempestades da vida, devemos direcionar nossa atenção a elas ou buscar na nossa alma incentivos para superá-las. Na sua opinião, qual é a melhor escolha?

Eu já fiz a minha.

Fernando Fernandes

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