quinta-feira, 9 de julho de 2026

Agora, ó nosso Deus, que diremos depois disto?

 


Gostaria de propor uma relação intertextual entre dois personagens da literatura. 

O primeiro é José, da autoria de Carlos Drummond de Andrade. 

José

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?

e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio — e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

Publicado em 1942, José apresenta o quadro de quem está em um beco sem saída. Seja pela voz  de uma terceira pessoa ou pela voz do próprio José, o quadro é estarrecedor. As metáforas (cito algumas) - a festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou; está sem mulher, está sem discurso; o bonde não veio, o riso não veio; com a chave na mão, quer abrir a porta, não existe porta - apontam para as diversas oportunidades e vivências possíveis a qualquer pessoa; entretanto, impossíveis a José, outra metáfora. 

A estrutura condicional (conjunção condicional se e verbos no pretérito imperfeito do subjuntivo) dos versos da penúltima estrofe, José é desafiado a reagir - se você gritasse, se você gemesse, se você dormisse, se você morresse... - mas ele não morre, ele é duro. Em suma, José está encurralado.

Por fim, o poeta apresenta José (ou qualquer um de nós) completamente perdido e desorientado, sem qualquer tipo de companhia, sem qualquer apoio espiritual (sem teogonia - doutrina mística sobre o nascimento dos deuses) ou material. Com todo o quadro caótico apresentado no poema, José continua em marcha, isto é, continua sua luta a despeito de tudo e de todos. Ainda que completamente perdido.

O segundo personagem é Secanias, filho de Jeiel, um dos filhos de Elão, registrado no livro de Esdras. 

Esdras 9: 7 a 15 (ARA)

⁷ Desde os dias de nossos pais até hoje, estamos em grande culpa e, por causa das nossas iniquidades, fomos entregues, nós, os nossos reis e os nossos sacerdotes, nas mãos dos reis de outras terras e sujeitos à espada, ao cativeiro, ao roubo e à ignomínia, como hoje se vê.

⁸ Agora, por breve momento, se nos manifestou a graça da parte do Senhor, nosso Deus, para nos deixar alguns que escapem e para dar-nos estabilidade no seu santo lugar; para nos alumiar os olhos, ó Deus nosso, e para nos dar um pouco de vida na nossa servidão;

⁹ porque somos servos, porém, na nossa servidão, não nos desamparou o nosso Deus; antes, estendeu sobre nós a sua misericórdia, e achamos favor perante os reis da Pérsia, para nos reviver, para levantar a casa do nosso Deus, para restaurar as suas ruínas e para que nos desse um muro de segurança em Judá e em Jerusalém.

¹⁰ Agora, ó nosso Deus, que diremos depois disto? Pois deixamos os teus mandamentos,

¹¹ que ordenaste por intermédio dos teus servos, os profetas, dizendo: A terra em que entrais para a possuir é terra imunda pela imundícia dos seus povos, pelas abominações com que, na sua corrupção, a encheram de uma extremidade à outra.

¹² Por isso, não dareis as vossas filhas a seus filhos, e suas filhas não tomareis para os vossos filhos, e jamais procurareis a paz e o bem desses povos; para que sejais fortes, e comais o melhor da terra, e a deixeis por herança a vossos filhos, para sempre.

¹³ Depois de tudo o que nos tem sucedido por causa das nossas más obras e da nossa grande culpa, e vendo ainda que tu, ó nosso Deus, nos tens castigado menos do que merecem as nossas iniquidades e ainda nos deste este restante que escapou,

¹⁴ tornaremos a violar os teus mandamentos e a aparentar-nos com os povos destas abominações? Não te indignarias tu, assim, contra nós, até de todo nos consumires, até não haver restante nem alguém que escapasse?

¹⁵ Ah! Senhor, Deus de Israel, justo és, pois somos os restantes que escaparam, como hoje se vê. Eis que estamos diante de ti na nossa culpa, porque ninguém há que possa estar na tua presença por causa disto.

Esdras 10: 1 a 4 (ARA)

¹ Enquanto Esdras orava e fazia confissão, chorando prostrado diante da Casa de Deus, ajuntou-se a ele de Israel mui grande congregação de homens, de mulheres e de crianças; pois o povo chorava com grande choro.

² Então, Secanias, filho de Jeiel, um dos filhos de Elão, tomou a palavra e disse a Esdras: Nós temos transgredido contra o nosso Deus, casando com mulheres estrangeiras, dos povos de outras terras, mas, no tocante a isto, ainda há esperança para Israel.

³ Agora, pois, façamos aliança com o nosso Deus, de que despediremos todas as mulheres e os seus filhos, segundo o conselho do Senhor e o dos que tremem ao mandado do nosso Deus; e faça-se segundo a Lei.

⁴ Levanta-te, pois esta coisa é de tua incumbência, e nós seremos contigo; sê forte e age.

No trecho referente ao nono capítulo, Esdras revela sua atonitez ao constatar que os recém-libertos do cativeiro babilônico continuam na prática dos mesmos pecados que os haviam levado, anteriormente, ao mesmo cativeiro. 

Agora, ó nosso Deus, que diremos depois disto?  O questionamento de Esdras a Deus expõe toda a natureza carnal e pecaminosa do ser humano. Os judeus não aprenderam com o cativeiro, assim como nós não aprendemos com nossos erros apesar das inúmeras manifestações de perdão e de misericórdia da parte de Deus.

Tanto José como Esdras vivenciaram momentos em que a solução era inexistente. Enquanto José não sabia o que fazer embora não estivesse de braços cruzados a esperar pelo pior, Esdras estava compungido em função da vergonha causada pelos pecados da nação judaica pós-exílio. Ambos estavam cientes do caos; ambos não visualizavam uma saída. No segundo caso, entretanto, Secanias apresentou a Esdras a solução para o caos espiritual: dissolução dos casamentos mistos. 

Um plano foi traçado. Secanias apresentou a saída a Esdras mas cabia-lhe agir. Por fim, todos os que voltaram do exílio se comprometeram a se desfazer das suas mulheres estrangeiras e filhos gerados naquele contexto.

E agora, José? Agora, ó nosso Deus, que diremos depois disto? Dois questionamentos semanticamente equivalentes com diferentes desdobramentos. O ideal é que sempre estejamos conectados com Cristo para que as diversas saídas para os diferentes dilemas sempre estejam prontas a serem utilizadas. Pena que, na imensa maioria das vezes, agimos como José seguindo sem saber para onde sem ter um Secanias por perto.

Afinal, com Cristo no barco tudo vai muito bem, e passa o temporal

José tinha Cristo no seu barco?

Fernando Fernandes


 


Nenhum comentário:

Postar um comentário