quinta-feira, 30 de julho de 2026
Deus cuida de mim?
quinta-feira, 23 de julho de 2026
Soft
Em um dia comum, como qualquer outro dia sem chuvas e sem frio no Distrito Federal dos anos 1980, eu estava no plantão de 24 horas como Comandante da Guarda da Base Aérea de Brasília. Como outros terceiros-sargentos em início de carreira, concorríamos aos plantões nessa função. Entre outras obrigações, devíamos efetuar uma ronda em toda o quartel para checar a presença dos sentinelas nos diversos postos no período noturno. Sabendo dessa atribuição e no intuito de torná-la mais leve, decidi antecipadamente que degustaria umas balas ao longo da caminhada. Naquele anoitecer, após a divisão dos horários da ronda, o oficial responsável por toda a equipe facultou o uso da viatura. Coube a mim a ronda das 2h às 4h da manhã.
Após dormir cerca de três horas, levantei-me.
Já acordado e pronto, abri mão da viatura e decidi cumprir a inspeção a pé mesmo sabendo que precisaria de quase todo o tempo disponível. Dessa forma, apreciaria melhor a companhia das balas que havia comprado na véspera.
Toda a checagem dos postos transcorreu sem intercorrências. Desde o corpo da guarda ao prédio do comando, passando pelo primeiro esquadrão, o segundo esquadrão, o pátio de aeronaves, o terceiro esquadrão, o quarto esquadrão e o portão lateral leste, nada de extraordinário. Sentinelas a postos, uniformes alinhados, porte do armamento previsto e a apresentação regulamentar. Tudo, exatamente tudo, conforme esperado para uma noite comum.
Mas faltava um último esquadrão e cerca de 20 minutos para eu concluir minha conferência nos postos. Entretanto, foi nesse local onde a única ocorrência de todas as rondas, não só a minha como a de meus colegas que me antecederam e sucederam, aconteceu. Ao procurar o sentinela de um dos alojamentos, não o encontrei. Enquanto tentava localizá-lo, as balas me causaram um efeito colateral completamente inusitado para aquele instante. Como a caminhada até o corpo da guarda seria longa para aquele contexto, fiz uso do banheiro daquele alojamento, mesmo constrangido com os ruídos gerados e a possibilidade de algum soldado precisar do banheiro naqueles minutos apesar do alojamento e o banheiro estarem vazios.
Ronda concluída, retornei ao posto inicial, refiz minha higiene, dormi mais um pouco e acordei no horário previsto para a conclusão das atividades daquele plantão quando um soldado apareceu à minha procura. Conversa vai, conversa vem, ele justificou a sua não permanência no posto daquele alojamento no horário em que passei por lá. Foi mais ou menos assim: "No horário em que o senhor passou por lá, eu tive um desarranjo intestinal e estava utilizando o banheiro daquele alojamento. Por isso, o senhor não me viu." Respondi-lhe: "tudo bem" e dispensei-o.
Mantive a ocorrência lançada no livro de serviço.
Fernando Fernandes
quinta-feira, 16 de julho de 2026
Correndo atrás do prejuízo
quinta-feira, 9 de julho de 2026
Agora, ó nosso Deus, que diremos depois disto?
O primeiro é José, da autoria de Carlos Drummond de Andrade.
Publicado em 1942, José apresenta o quadro de quem está em um beco sem saída. Seja pela voz de uma terceira pessoa ou pela voz do próprio José, o quadro é estarrecedor. As metáforas (cito algumas) - a festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou; está sem mulher, está sem discurso; o bonde não veio, o riso não veio; com a chave na mão, quer abrir a porta, não existe porta - apontam para as diversas oportunidades e vivências possíveis a qualquer pessoa; entretanto, impossíveis a José, outra metáfora.
A estrutura condicional (conjunção condicional se e verbos no pretérito imperfeito do subjuntivo) dos versos da penúltima estrofe, José é desafiado a reagir - se você gritasse, se você gemesse, se você dormisse, se você morresse... - mas ele não morre, ele é duro. Em suma, José está encurralado.
Por fim, o poeta apresenta José (ou qualquer um de nós) completamente perdido e desorientado, sem qualquer tipo de companhia, sem qualquer apoio espiritual (sem teogonia - doutrina mística sobre o nascimento dos deuses) ou material. Com todo o quadro caótico apresentado no poema, José continua em marcha, isto é, continua sua luta a despeito de tudo e de todos. Ainda que completamente perdido.
O segundo personagem é Secanias, filho de Jeiel, um dos filhos de Elão, registrado no livro de Esdras.
Esdras 9: 7 a 15 (ARA)
⁷ Desde os dias de nossos pais até hoje, estamos em grande culpa e, por causa das nossas iniquidades, fomos entregues, nós, os nossos reis e os nossos sacerdotes, nas mãos dos reis de outras terras e sujeitos à espada, ao cativeiro, ao roubo e à ignomínia, como hoje se vê.
⁸ Agora, por breve momento, se nos manifestou a graça da parte do Senhor, nosso Deus, para nos deixar alguns que escapem e para dar-nos estabilidade no seu santo lugar; para nos alumiar os olhos, ó Deus nosso, e para nos dar um pouco de vida na nossa servidão;
⁹ porque somos servos, porém, na nossa servidão, não nos desamparou o nosso Deus; antes, estendeu sobre nós a sua misericórdia, e achamos favor perante os reis da Pérsia, para nos reviver, para levantar a casa do nosso Deus, para restaurar as suas ruínas e para que nos desse um muro de segurança em Judá e em Jerusalém.
¹⁰ Agora, ó nosso Deus, que diremos depois disto? Pois deixamos os teus mandamentos,
¹¹ que ordenaste por intermédio dos teus servos, os profetas, dizendo: A terra em que entrais para a possuir é terra imunda pela imundícia dos seus povos, pelas abominações com que, na sua corrupção, a encheram de uma extremidade à outra.
¹² Por isso, não dareis as vossas filhas a seus filhos, e suas filhas não tomareis para os vossos filhos, e jamais procurareis a paz e o bem desses povos; para que sejais fortes, e comais o melhor da terra, e a deixeis por herança a vossos filhos, para sempre.
¹³ Depois de tudo o que nos tem sucedido por causa das nossas más obras e da nossa grande culpa, e vendo ainda que tu, ó nosso Deus, nos tens castigado menos do que merecem as nossas iniquidades e ainda nos deste este restante que escapou,
¹⁴ tornaremos a violar os teus mandamentos e a aparentar-nos com os povos destas abominações? Não te indignarias tu, assim, contra nós, até de todo nos consumires, até não haver restante nem alguém que escapasse?
¹⁵ Ah! Senhor, Deus de Israel, justo és, pois somos os restantes que escaparam, como hoje se vê. Eis que estamos diante de ti na nossa culpa, porque ninguém há que possa estar na tua presença por causa disto.
Esdras 10: 1 a 4 (ARA)
¹ Enquanto Esdras orava e fazia confissão, chorando prostrado diante da Casa de Deus, ajuntou-se a ele de Israel mui grande congregação de homens, de mulheres e de crianças; pois o povo chorava com grande choro.
² Então, Secanias, filho de Jeiel, um dos filhos de Elão, tomou a palavra e disse a Esdras: Nós temos transgredido contra o nosso Deus, casando com mulheres estrangeiras, dos povos de outras terras, mas, no tocante a isto, ainda há esperança para Israel.
³ Agora, pois, façamos aliança com o nosso Deus, de que despediremos todas as mulheres e os seus filhos, segundo o conselho do Senhor e o dos que tremem ao mandado do nosso Deus; e faça-se segundo a Lei.
⁴ Levanta-te, pois esta coisa é de tua incumbência, e nós seremos contigo; sê forte e age.
No trecho referente ao nono capítulo, Esdras revela sua atonitez ao constatar que os recém-libertos do cativeiro babilônico continuam na prática dos mesmos pecados que os haviam levado, anteriormente, ao mesmo cativeiro.
Agora, ó nosso Deus, que diremos depois disto? O questionamento de Esdras a Deus expõe toda a natureza carnal e pecaminosa do ser humano. Os judeus não aprenderam com o cativeiro, assim como nós não aprendemos com nossos erros apesar das inúmeras manifestações de perdão e de misericórdia da parte de Deus.
Tanto José como Esdras vivenciaram momentos em que a solução era inexistente. Enquanto José não sabia o que fazer embora não estivesse de braços cruzados a esperar pelo pior, Esdras estava compungido em função da vergonha causada pelos pecados da nação judaica pós-exílio. Ambos estavam cientes do caos; ambos não visualizavam uma saída. No segundo caso, entretanto, Secanias apresentou a Esdras a solução para o caos espiritual: dissolução dos casamentos mistos.
Um plano foi traçado. Secanias apresentou a saída a Esdras mas cabia-lhe agir. Por fim, todos os que voltaram do exílio se comprometeram a se desfazer das suas mulheres estrangeiras e filhos gerados naquele contexto.
E agora, José? Agora, ó nosso Deus, que diremos depois disto? Dois questionamentos semanticamente equivalentes com diferentes desdobramentos. O ideal é que sempre estejamos conectados com Cristo para que as diversas saídas para os diferentes dilemas sempre estejam prontas a serem utilizadas. Pena que, na imensa maioria das vezes, agimos como José seguindo sem saber para onde sem ter um Secanias por perto.
Afinal, com Cristo no barco tudo vai muito bem, e passa o temporal.
José tinha Cristo no seu barco?
Fernando Fernandes
quinta-feira, 2 de julho de 2026
Céu na terra ou terra no céu?
Em visita a uma igreja próxima da minha residência, dias depois de um encontro de casais promovido pela igreja onde congrego, a canção Minha casa foi entoada entre outros cânticos voltados para a família.
No cântico em primeira pessoa, a voz poética expressa inúmeros projetos para sua casa, seu lar. Para que tais planos se tornem reais, uma oração é feita a Deus nesse sentido. Entre outros projetos para seu lar, o eu lírico deseja que seu lar seja o lugar onde Jesus tenha prazer em ficar e onde o Espírito Santo venha a habitar.
Que características deve ter um lar onde Jesus tenha prazer em ficar e onde o Espírito Santo venha a habitar? A oração feita pelo eu lírico no estribilho (último conjunto de versos) fornece essas respostas.
O coração deve ser esse lar onde Cristo habita. Quando Cristo deu a sua vida na cruz por nós, ele exclamou "Deus meu, Deus, por que me abandonaste!" porque, naquele instante, houve a separação entre Pai e Filho em função dos pecados de toda a humanidade sobre seus ombros. Portanto, para que Cristo habite no coração de alguém, é mister que esse coração seja tão puro quanto o coração de uma criança.
Entretanto, não basta que Cristo habite nesse lar. É necessário que ele também se sinta à vontade. Isso só acontece quando esse hóspede é acolhido, abraçado e respeitado. Nesse contexto, julgamentos, contestações e desrespeito só geram constrangimentos. Logo, só é possível a Cristo se sentir à vontade em um lar quando cada um nesse lar, realmente, entender quem Cristo é, seu ponto de vista sobre a vida, sobre o comportamento humano e sobre as relações familiares.
A consequência prática de termos Jesus a habitar de forma à vontade nesse lar significa que haverá harmonia. No sentido pretendido pela canção, a harmonia é entendida como a vivência dos preceitos bíblicos entre irmãos. O fruto do Espírito é, nesse contexto o grande balizador da tolerância entre os que vivem nesse lar. Dessa forma, o amor, a alegria, a paz, a longanimidade, a benignidade, a bondade, a fidelidade, a mansidão e o domínio próprio devem ser uma prática dentro do lar.
Para que o lar seja o lugar onde Jesus tenha prazer em ficar e onde o Espírito Santo venha a habitar, é imprescindível que, a partir da habitação de Cristo no coração, ele possa se sentir à vontade e, como consequência prática, a harmonia dentro do lar será uma constante.
Em havendo quaisquer deslizes que venham a impedir a presença de Cristo no lar, a confissão, o arrependimento, a oração e a reconciliação devem ser o antídoto. Caso contrário, o lar será, apenas, um amontoado de pessoas que partilham do mesmo teto e, eventualmente, dividem despesas.
Fernando Fernandes



