Em um dia comum, como qualquer outro dia sem chuvas e sem frio no Distrito Federal dos anos 1980, eu estava no plantão de 24 horas como Comandante da Guarda da Base Aérea de Brasília. Como outros terceiros-sargentos em início de carreira, concorríamos aos plantões nessa função. Entre outras obrigações, devíamos efetuar uma ronda em toda o quartel para checar a presença dos sentinelas nos diversos postos no período noturno. Sabendo dessa atribuição e no intuito de torná-la mais leve, decidi antecipadamente que degustaria umas balas ao longo da caminhada. Naquele anoitecer, após a divisão dos horários da ronda, o oficial responsável por toda a equipe facultou o uso da viatura. Coube a mim a ronda das 2h às 4h da manhã.
Após dormir cerca de três horas, levantei-me.
Já acordado e pronto, abri mão da viatura e decidi cumprir a inspeção a pé mesmo sabendo que precisaria de quase todo o tempo disponível. Dessa forma, apreciaria melhor a companhia das balas que havia comprado na véspera.
Toda a checagem dos postos transcorreu sem intercorrências. Desde o corpo da guarda ao prédio do comando, passando pelo primeiro esquadrão, o segundo esquadrão, o pátio de aeronaves, o terceiro esquadrão, o quarto esquadrão e o portão lateral leste, nada de extraordinário. Sentinelas a postos, uniformes alinhados, porte do armamento previsto e a apresentação regulamentar. Tudo, exatamente tudo, conforme esperado para uma noite comum.
Mas faltava um último esquadrão e cerca de 20 minutos para eu concluir minha conferência nos postos. Entretanto, foi nesse local onde a única ocorrência de todas as rondas, não só a minha como a de meus colegas que me antecederam e sucederam, aconteceu. Ao procurar o sentinela de um dos alojamentos, não o encontrei. Enquanto tentava localizá-lo, as balas me causaram um efeito colateral completamente inusitado para aquele instante. Como a caminhada até o corpo da guarda seria longa para aquele contexto, fiz uso do banheiro daquele alojamento, mesmo constrangido com os ruídos gerados e a possibilidade de algum soldado precisar do banheiro naqueles minutos apesar do alojamento e o banheiro estarem vazios.
Ronda concluída, retornei ao posto inicial, refiz minha higiene, dormi mais um pouco e acordei no horário previsto para a conclusão das atividades daquele plantão quando um soldado apareceu à minha procura. Conversa vai, conversa vem, ele justificou a sua não permanência no posto daquele alojamento no horário em que passei por lá. Foi mais ou menos assim: "No horário em que o senhor passou por lá, eu tive um desarranjo intestinal e estava utilizando o banheiro daquele alojamento. Por isso, o senhor não me viu." Respondi-lhe: "tudo bem" e dispensei-o.
Mantive a ocorrência lançada no livro de serviço.
Fernando Fernandes

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