quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Doce voz



Na Igreja Batista de Barão da Taquara, onde praticamente nasci e congreguei até me mudar para Brasília, cresci tendo o Cantor Cristão como fonte auxiliar de inspiração e de devoção. Ao relembrar esse passado,  o seguinte trecho do hino 384 veio ao meu coração.

Que doce voz tem meu Senhor!
Voz de amor tão terna e graciosa
Que enche o coração,
Dá consolação
Que só o crente goza.

Considerando a época em que João Avelino de Souza (1886-1962) escreveu essa letra para a melodia de Austin Miles (1868-1946), os únicos estranhamentos semânticos no trecho apresentado se fazem presentes no substantivo crente e na flexão verbal goza. Na época, crente era, literalmente, sinônimo para salvo; hoje, nem tanto. Já a flexão verbal goza adquiriu maior conotação negativa, embora admita o significado de usufrui, desfruta, regozija.

As adjetivações e ações atribuídas à voz do Senhor foram um verdadeiro assalto ao meu lado racional. Segundo o eu lírico, a voz do Senhor é doce, terna e graciosa;  a voz do Senhor enche o coração, dá consolação e apenas as pessoas que um dia abriram seu coração a Cristo são capazes de usufruí-las.

Enquanto tentava equalizar meus pensamentos a partir da experiência acima, a canção composta pelo grupo Vencedores por Cristo no final da década de 1990 também veio à mente.

Só de ouvir tua voz
De sentir teu amor
Só de pronunciar o teu nome
Os meus medos se vão
Minha dor, meu sofrer
Pois de paz tu inundas meu ser

Jesus
Que doce nome
Que transforma em alegria
O meu triste coração

Nela, o mesmo fenômeno semântico em relação à voz de Jesus se faz presente. O nome de Jesus, seja dito ou ouvido, é capaz de dissipar os medos, as dores e o sofrer, pois transforma a tristeza em alegria em função da paz que inunda o coração do eu lírico.

Enquanto ainda tentava equalizar meus pensamentos a partir da experiência acima, fui até às Sagradas Escrituras. Em uma breve pesquisa por vocabulário que pudesse balizar as experiências musicais citadas, encontrei os versos a seguir.

Salmos 19: 7 a 10 ARA + Salmos 119:103 ARA

⁷ A lei do Senhor é perfeita e restaura a alma; o testemunho do Senhor é fiel e dá sabedoria aos símplices.
⁸ Os preceitos do Senhor são retos e alegram o coração; o mandamento do Senhor é puro e ilumina os olhos.
⁹ O temor do Senhor é límpido e permanece para sempre; os juízos do Senhor são verdadeiros e todos igualmente, justos.
¹⁰ São mais desejáveis do que ouro, mais do que muito ouro depurado; e são mais doces do que o mel e o destilar dos favos. 

¹⁰³ Quão doces são as tuas palavras ao meu paladar! Mais que o mel à minha boca.

A Bíblia também faz referência à doçura da voz de Jesus. A mesma lei do Senhor é perfeita e restaura a alma; o mesmo testemunho do Senhor é fiel e dá sabedoria aos simples (versículo 7); os mesmos preceitos do Senhor são retos e alegram o coração; o mesmo mandamento do Senhor é puro e ilumina os olhos (versículo 8); o mesmo temor do Senhor é límpido e permanece para sempre; os mesmos juízos do Senhor são verdadeiros e todos igualmente, justos (versículo 9).  

Todos os sujeitos desses versículos (a lei do Senhor, o testemunho do Senhor, os preceitos do Senhor, o mandamento do Senhor, o temor do Senhor e os juízos do Senhor) concordam com a flexão verbal são que inicia o décimo versículo. As adjetivações feitas aqui são no sentido de que, além das adjetivações e ações apresentadas anteriormente, a doce voz de Jesus é mais desejável do que o ouro mais puro que possa existir e mais doce do que o mel, por melhor que seja destilado e por mais puro que seja. Tudo é retomado no versículo 103 do capítulo 119 do livro dos Salmos. Em suma, a doce voz de Jesus é multiforme seja por meio da lei, do testemunho, dos preceitos, do mandamento, do temor e dos juízos 

Diferentes experiências ao longo do tempo sobre a doce voz de Jesus foram apresentadas. Desde Davi (Salmos 19), a autoria indeterminada (Salmos 119) até as canções apresentadas corroboraram a afirmação de que todas foram um assalto ao meu lado racional. Todas, absolutamente todas as caracterizações e ações da doce voz de Jesus expressas no presente do indicativo revelam condição atual no momento da fala e não deixam margem a dúvidas quanto à veracidade do que é dito. Entretanto, qual é a causa de duvidarmos da ação de Deus na nossa vida nas diversas situações de desconforto que enfrentamos? Por que não cremos que Cristo está no barco onde estamos? Por que agimos como José (poema de Drummond)? Se somos salvos e redimidos pelo sangue de Jesus, por que nós nos definhamos frente a dificuldades?  

O assalto ao meu racional se desfez quando me dei conta de que a certeza da presença divina na nossa caminhada,  diante das ansiedades, dos tormentos e das agonias da vida não é excludente. Quando Davi expôs sua angústia a Deus ao clamar: "Estou cansado de tanto gemer; todas as noites faço nadar o meu leito, de minhas lágrimas o alago" (Salmos 6:6 ARA), a hipérbole utilizada traduz nossa condição humana frente ao desconhecido. Da mesma forma, quando Cristo clamou ao Pai: "Meu Pai, se possível, passe de mim este cálice! Todavia não seja como eu quero, e sim como tu queres" (Mateus 26: 39 ARA), ele rasgou seu coração para expressar sua angústia no sentido da possibilidade de ser poupado do sacrifício vicário. Nos dois casos, as aflições caminham lado a lado com a presença de Deus. Como o próprio Cristo afirmou certa vez, "No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo". (João 16: 33 ARA).

Na minha trajetória cristã, reconheço a presença e a proteção de Cristo. Sei que só cheguei onde estou  em função da mão abençoadora de Jesus.  Entretanto, ainda não vivi aquele tipo de experiência em que, verdadeiramente, a doce voz de Jesus será capaz, peremptoriamente, de inundar o meu coração do verdadeiro gozo, do verdadeiro deleite, do verdadeiro regozijo. Mas conheci algumas pessoas que viveram isso. 

Dentre elas, meu sogro. Nos seus últimos anos de vida.


Fernando Fernandes

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Tu és






Tu és + Águas Purificadoras
Fhop (Florianópolis House of Prayer) - 2022

Junto ao poço estava eu
Quando um homem judeu
Viu a sede que havia em mim
Sem me ouvir conheceu
E me ofereceu
Uma água que jorra sem fim

Dá-me de beber
Pois tenho sede
Não quero mais buscar
Em outras fontes
Não precisarei aqui voltar
Pra minha sede saciar
Uma vez que já ouvi Teu falar

Tu És por quem a minha’alma esperou
A fonte da vida que me encontrou
És o dom de Deus o Messias
O meu Salvador



Até pouco tempo, sempre entendi que os cânticos contemporâneos careciam de fundamentação teológica. Em parte, é verdade. Muitos deles possuem  letra rasa, repetitiva e envolvida em uma melodia paupérrima a ponto de se transformar em goma de mascar na mente do ouvinte. Relembre, agora, uma marchinha de carnaval ou um jingle de propaganda eleitoral. Se você obteve sucesso nesse mini desafio, não foi porque as músicas eram boas ou ruins. Mas sim pelo seus efeitos chicle nelas.

Entretanto, há pérolas no mundo congregacional cristão. Uma delas é a canção que abre essa publicação.  Há um bom tempo, tive o privilégio de visitar a igreja onde praticamente nasci e cresci em um culto ao vivo pela Internet. Naquele evento matinal, foi recitado um poema autoral baseado no trecho bíblico sobre a mulher samaritana e a pregação também foi baseada nesse episódio. Posteriormente, cada vez que a canção acima era entoada nos nossos nossos cultos noturnos, a experiência daquela manhã dominical vinha ao coração.

Gostaria, apenas, de desenvolver os versos não quero mais buscar em outras fontes.

Se a mulher samaritana não deseja mais buscar a água em outras fontes, ela se dá conta que a água apresentada por Cristo é suficiente para saciar sua sede. Como água e sede são metafóricos, a forma verbal saciar traz a ideia de que eventuais carências interiores são plenamente dessedentadas pela água. Nas palavras de Cristo, quem beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede (João 4: 14 ARA).

Da mesma forma, uma canção antiga dos Vencedores por Cristo já afirmava: Satisfação é ter a Cristo / Não há melhor prazer já visto / Sou de Jesus, agora eu sinto / Satisfação sem fim / Satisfação é nova vida / Eu com Jesus em alegria / Sempre cantando a melodia / Satisfação sem fim. Com letra aparentemente volátil, o cântico deixa transparecer a efemeridade do substantivo abstrato satisfação porque somos seres naturalmente insatisfeitos. Entretanto, trata-se de satisfação em Cristo.

Satisfeito e saciado são sinônimos para o contexto apresentado, embora saibamos que saciedade e satisfação são estados transitórios. Em Cristo, entretanto, devemos exercitar nossa fé para que essa efemeridade seja convertida em eternidade em Cristo. 

Em um cântico antigo,  o eu lírico expressou sua experiência ao afirmar: "Com Cristo estou contente, / Ele me satisfaz / Com esse amor do Salvador / Agora estou contente, / Agora estou contente" (hino 395 CC). Para ele, o amor de Cristo traz ao coração dele alegria e satisfação. 

E o que sempre vem ao meu coração quando ouço a canção que abre essa publicação? 

Simples. A certeza de que preciso desenvolver ainda mais minha fé a ponto de afirmar, peremptoriamente, que Cristo me satisfaz.

 
Fernando Fernandes 

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Efeito inusitado


Há muitos anos, admirava pessoas que nadavam longos trechos. Seja enquanto eu almoçava no Sesc Taguatinga e observava os alunos da natação naquele vaivém ou quando desfrutava das minhas férias como casado em Guarapari e prestava atenção naqueles homens e mulheres que faziam a corda em relação ao litoral, no formato de um arco, da praia das Castanheiras e da prainha de Muquiçaba. 

Mesmo morando e trabalhando na mesma cidade daquele Sesc, não fui capaz de materializar aquela admiração náutica. 

Minha relação com a natação nunca foi além do que chamam de pedalar ao nadar, isto é, o nado instintivo sem a devida técnica. Ia à praia nos meus tempos de adolescente carioca e o que tinha era desafiar as ondas por meio do jacaré, ou seja, pegar carona na onda por cima ou por baixo dela. Ou ainda furar a onda no sentido contrário. Medo, medo, não havia. Como casado, mantinha a mesma relação com as ondas e com os jacarés de Guarapari, mas tinha de tirar tempo para minha amada, pois ela mal deixava as marolas chegarem à cintura.

Os anos se passaram ao mesmo tempo em que aquela admiração continuava. Entretanto, a passagem do tempo trouxe uma arrumação de ovos no cesto. E o melhor arranjo para aquele contexto foi deixar Taguatinga e morar em uma outra cidade da Capital. Dessa vez, em um apartamento.

O primeiro estranhamento no meu novo lar foi o fato de ter vivido minha vida em uma residência. Quantos objetos foram doados! Pelo menos, descobri que não precisava de nada daquilo. E o pouco que consegui trazer na mudança continua em caixas plásticas. Mas ainda me falta a devida coragem para me desfazer deles.

O segundo estranhamento no meu novo lar foi o reacender daquela admiração. Meu apartamento, em um andar alto, permite contemplar todo o parque aquático de um outro Sesc, vizinho ao terreno do condomínio em que resido. Foram seis meses de reacendimento ininterrupto. Desde as 6 até as 22 horas dos dias úteis, era possível contemplar os alunos da natação naquele vaivém sedutor.

Dessa vez, foi diferente. Em mais um almoço no Sesc Taguatinga com o mesmo colega de trabalho, contei-lhe sobre meu novo endereço, sobre o Sesc vizinho a mim e sobre a admiração antiga. Em uma reação inusitada e até mesmo grosseira, ele me disse, quase gritando: E o que você está esperando?

Enquanto eu precisei de mais de dez anos para transformar minha admiração em realidade, aquela que divide meu coração precisou de apenas sete dias para transformar a admiração que não existia em realidade. Ambos nos matriculamos nas aulas noturnas de natação deste Sesc.

Fernando Fernandes



quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Blandícias



Ainda era solteiro. 

Em uma das missões pela Força Aérea Brasileira na capital paulista, aproveitei uma das poucas noites de folga daquela semana e visitei uma igreja batista próxima de onde estava hospedado. Não me lembro do bairro, não me lembro do nome da igreja, não me lembro do ano. Mas me lembro do recado de Deus naquela noite. 

Há mais de trinta e três anos, não consigo me lembrar de como esse recado foi desenvolvido. A maioria esmagadora das pregações precisa de, pelo menos, vinte minutos para que o texto bíblico e o seu desdobramento sejam adequadamente apresentados para a correta assimilação por parte do ouvinte. Isso sem falar no preparo espiritual do pregador e do coração acessível da congregação.

Como eu não me lembro do desenvolvimento daquele  recado daquela noite, proporei uma possibilidade por aqui.

O recado era: Filho meu, se os pecadores, com blandícias, te quiserem tentar, não consintas. Não há como me esquecer daquela noite. Além da importância espiritual do recado, houve o aprendizado de uma palavra até então desconhecida para mim. Para não entregar tudo pronto, apresento algumas versões além da versão apresentada acima de Provérbios 1: 10 para decifrar esse mistério linguístico.


Filho meu, se os pecadores, com blandícias, te quiserem tentar, não consintas. (ARC)

Filho meu, se os pecadores querem seduzir-te, não o consintas. (ARA)

Meu filho, se pecadores tentarem seduzi-lo, não ceda! (NVI)

Filho meu, se os pecadores procuram te atrair com agrados, não aceites. (ACF)

Meu filho, se pecadores quiserem seduzi-lo, não permita que isso aconteça. (NVT)


Nas versões acima, temos os verbos tentar, seduzir e atrair com o mesmo sentido. Entretanto, apenas duas delas apresentam as locuções adverbiais com blandícias e com agrados para descrever o processo da sedução. Nesse sentido, somos tentados, seduzidos e atraídos pelas coisas que nos agradam. Mais do que aprender uma palavra nova, o importante é aprender como se dá o processo da tentação e como evitá-lo. 

Lá atrás, aprendi essa palavra. Atualmente, eu me frustro quando me dou conta de que fui seduzido pela minha própria concupiscência e pelas blandícias e agrados que se apresentaram a mim. Inclusive, no dia de ontem.

Mas a luta continua...

Fernando Fernandes