Na Igreja Batista de Barão da Taquara, onde praticamente nasci e congreguei até me mudar para Brasília, cresci tendo o Cantor Cristão como fonte auxiliar de inspiração e de devoção. Ao relembrar esse passado, o seguinte trecho do hino 384 veio ao meu coração.
Que doce voz tem meu Senhor!
Voz de amor tão terna e graciosa
Que enche o coração,
Dá consolação
Que só o crente goza.
Considerando a época em que João Avelino de Souza (1886-1962) escreveu essa letra para a melodia de Austin Miles (1868-1946), os únicos estranhamentos semânticos no trecho apresentado se fazem presentes no substantivo crente e na flexão verbal goza. Na época, crente era, literalmente, sinônimo para salvo; hoje, nem tanto. Já a flexão verbal goza adquiriu maior conotação negativa, embora admita o significado de usufrui, desfruta, regozija.
As adjetivações e ações atribuídas à voz do Senhor foram um verdadeiro assalto ao meu lado racional. Segundo o eu lírico, a voz do Senhor é doce, terna e graciosa; a voz do Senhor enche o coração, dá consolação e apenas as pessoas que um dia abriram seu coração a Cristo são capazes de usufruí-las.
Enquanto tentava equalizar meus pensamentos a partir da experiência acima, a canção composta pelo grupo Vencedores por Cristo no final da década de 1990 também veio à mente.
Só de ouvir tua voz
De sentir teu amor
Só de pronunciar o teu nome
Os meus medos se vão
Minha dor, meu sofrer
Pois de paz tu inundas meu ser
Jesus
Que doce nome
Que transforma em alegria
O meu triste coração
Nela, o mesmo fenômeno semântico em relação à voz de Jesus se faz presente. O nome de Jesus, seja dito ou ouvido, é capaz de dissipar os medos, as dores e o sofrer, pois transforma a tristeza em alegria em função da paz que inunda o coração do eu lírico.
Enquanto ainda tentava equalizar meus pensamentos a partir da experiência acima, fui até às Sagradas Escrituras. Em uma breve pesquisa por vocabulário que pudesse balizar as experiências musicais citadas, encontrei os versos a seguir.
Salmos 19: 7 a 10 ARA + Salmos 119:103 ARA
⁷ A lei do Senhor é perfeita e restaura a alma; o testemunho do Senhor é fiel e dá sabedoria aos símplices.
⁸ Os preceitos do Senhor são retos e alegram o coração; o mandamento do Senhor é puro e ilumina os olhos.
⁹ O temor do Senhor é límpido e permanece para sempre; os juízos do Senhor são verdadeiros e todos igualmente, justos.
¹⁰ São mais desejáveis do que ouro, mais do que muito ouro depurado; e são mais doces do que o mel e o destilar dos favos.
¹⁰³ Quão doces são as tuas palavras ao meu paladar! Mais que o mel à minha boca.
A Bíblia também faz referência à doçura da voz de Jesus. A mesma lei do Senhor é perfeita e restaura a alma; o mesmo testemunho do Senhor é fiel e dá sabedoria aos simples (versículo 7); os mesmos preceitos do Senhor são retos e alegram o coração; o mesmo mandamento do Senhor é puro e ilumina os olhos (versículo 8); o mesmo temor do Senhor é límpido e permanece para sempre; os mesmos juízos do Senhor são verdadeiros e todos igualmente, justos (versículo 9).
Todos os sujeitos desses versículos (a lei do Senhor, o testemunho do Senhor, os preceitos do Senhor, o mandamento do Senhor, o temor do Senhor e os juízos do Senhor) concordam com a flexão verbal são que inicia o décimo versículo. As adjetivações feitas aqui são no sentido de que, além das adjetivações e ações apresentadas anteriormente, a doce voz de Jesus é mais desejável do que o ouro mais puro que possa existir e mais doce do que o mel, por melhor que seja destilado e por mais puro que seja. Tudo é retomado no versículo 103 do capítulo 119 do livro dos Salmos. Em suma, a doce voz de Jesus é multiforme seja por meio da lei, do testemunho, dos preceitos, do mandamento, do temor e dos juízos
Diferentes experiências ao longo do tempo sobre a doce voz de Jesus foram apresentadas. Desde Davi (Salmos 19), a autoria indeterminada (Salmos 119) até as canções apresentadas corroboraram a afirmação de que todas foram um assalto ao meu lado racional. Todas, absolutamente todas as caracterizações e ações da doce voz de Jesus expressas no presente do indicativo revelam condição atual no momento da fala e não deixam margem a dúvidas quanto à veracidade do que é dito. Entretanto, qual é a causa de duvidarmos da ação de Deus na nossa vida nas diversas situações de desconforto que enfrentamos? Por que não cremos que Cristo está no barco onde estamos? Por que agimos como José (poema de Drummond)? Se somos salvos e redimidos pelo sangue de Jesus, por que nós nos definhamos frente a dificuldades?
O assalto ao meu racional se desfez quando me dei conta de que a certeza da presença divina na nossa caminhada, diante das ansiedades, dos tormentos e das agonias da vida não é excludente. Quando Davi expôs sua angústia a Deus ao clamar: "Estou cansado de tanto gemer; todas as noites faço nadar o meu leito, de minhas lágrimas o alago" (Salmos 6:6 ARA), a hipérbole utilizada traduz nossa condição humana frente ao desconhecido. Da mesma forma, quando Cristo clamou ao Pai: "Meu Pai, se possível, passe de mim este cálice! Todavia não seja como eu quero, e sim como tu queres" (Mateus 26: 39 ARA), ele rasgou seu coração para expressar sua angústia no sentido da possibilidade de ser poupado do sacrifício vicário. Nos dois casos, as aflições caminham lado a lado com a presença de Deus. Como o próprio Cristo afirmou certa vez, "No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo". (João 16: 33 ARA).
Na minha trajetória cristã, reconheço a presença e a proteção de Cristo. Sei que só cheguei onde estou em função da mão abençoadora de Jesus. Entretanto, ainda não vivi aquele tipo de experiência em que, verdadeiramente, a doce voz de Jesus será capaz, peremptoriamente, de inundar o meu coração do verdadeiro gozo, do verdadeiro deleite, do verdadeiro regozijo. Mas conheci algumas pessoas que viveram isso.
Dentre elas, meu sogro. Nos seus últimos anos de vida.
Fernando Fernandes