quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Prazeres






A experiência abaixo foi vivenciada antes de 2013, quando ainda possuía um Ford Fiesta Sedan.

Há uma semana, dirigi-me ao comércio local para cumprir duas missões igualmente importantes. Por questões de comodidade, deixei meu carro em um local em que não me aborreceria em manobrar ou mendigar vaga. Sabia que daria duas caminhadas.

Na primeira etapa, tudo transcorreu normalmente. Guardei a primeira encomenda no carro e retornei ao comércio para a próxima empreitada.

De repente, não mais do que de repente, tudo escuro.

Uma chuvarada de dez minutos transformou a rua em rio. E lá estava eu querendo atravessá-la. Mas com fazê-lo sem nadar?

Fiquei parado observando os pedaços de pau, latinhas de refrigerante e sacos plásticos que tentavam se salvar inutilmente da correnteza. Também as marolas que os automóveis criavam.

Foi gostoso.

Lembrei-me de outra chuvarada há uns vinte anos. Daquela vez, eu encarara tudo a ponto de chegar à sala de aula da faculdade igualzinho a um pinto molhado.  E de uma outra, quando resolvera ir de Taguatinga a Samambaia pedalando. Retornara mais encharcado do que... E uma na minha adolescência, ao usar minha bicicleta para ir ao hospital visitar minha mãe que sofrera uma intervenção cirúrgica. Que mico! De um ano para cá, uso bicicleta ou meus pés para ir ao trabalho. Ainda não aconteceu.

A chuva cessou. O mover das águas, não.

E continuava a viajar no tempo quando fui despertado por um senhor que destrancava seu carro para seguir seu destino.

- Você quer atravessar a rua?

- Estou esperando abaixar a maré.

- Então embarque.

Teve início uma nova viagem.

Fernando Fernandes

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quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Quem sabe, quem sabe, quem sabe





Gostaria de reviver uma experiência real que se passou há mais de dez anos. 


Há dias em que saio da escola onde leciono como se estivesse saindo do céu. Recentemente, eu e outros professores encaramos uma jornada no turno contrário quando tínhamos o auditório cheio de alunos em uma verdadeira demonstração de respeito e educação. Infelizmente, em outros dias, parece que ao sair da escola é que vou entrar no céu. E é sobre esses poucos momentos que quero discorrer nesse momento.

Um desses momentos aconteceu recentemente em uma turma do Ensino Médio do último horário do turno vespertino. Reconheço que a escola não é o lugar mais bonito do mundo embora tenhamos área verde para circulação. Reconheço que o ambiente físico não é lá uma Brastemp embora tenhamos uma boa sala de aula, cadeiras, quadro, TV, equipamentos de multimídia e iluminação. Reconheço também que a estrutura pedagógica não é a ideal, embora tenhamos uma direção que sabe decidir e resolver problemas. Em determinados momentos, há a carência de professores embora no geral a grade curricular esteja completa. E olha que boa parte deles possui Pós-Graduação ou Mestrado. Temos inclusive um orientador educacional. Só não consigo reconhecer o fato de jovens que têm acesso ao estudo aproveitarem seus momentos em sala para distrair o colega, conversar fiado, preocupar-se com o celular. Enfim, sabotar a aula, destruir a saúde de quem está à frente e desrespeitar o direito do colega ao estudo. Mas quero entender.

Quem sabe, a aula está muito simples. É como se esse aluno dissesse que já domina o assunto que está a ser ministrado. Mas como fica seu colega que ainda não teve acesso a aquela informação?

Quem sabe, esse aluno não está entendendo nada. Mas, no lugar de procurar crescer por dentro e correr atrás do prejuízo, é mais fácil aliviar a dor do não entendimento ao fazer com que outros alunos que querem entender, não entendam.

Quem sabe, o professor está ensinando errado. Se o aluno percebeu que alguma informação passada pelo professor não procede, esse aluno tem o direito e o dever de, de forma educada e discreta, dar um toque no seu professor sobre o fato. Só que é mais fácil destruir do que ajudar ao seu professor a dar uma aula melhor.

Quem sabe, quem sabe, quem sabe... Poderia ficar enumerando outras possibilidades, mas vou parar aqui.

Retornando ao momento citado no final segundo parágrafo, saí da sala de aula ao final do expediente extremamente triste, desmotivado, chateado com o que acontecera. Mas antes que chegasse ao estacionamento, a sensação de estar saindo do céu retornou ao meu coração ao cumprimentar e ser cumprimentado por uma ex-aluna e ter ouvido da parte dela palavras espontâneas de gratidão. Ela, mesmo sem poder enxergar meu rosto - ela é totalmente cega -, enxergou meu coração.

Sem saber, ela me deu o carinho que não recebi naquela turma do último horário daquele dia.

Fernando Fernandes

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segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Quebrada


Todos nós pertencemos a alguma quebrada. Não importa o local, o bairro, a cidade, o país ou o continente. Com memórias afetivas boas ou ruins, possuímos uma origem, vivenciamos histórias e acumulamos experiências.

Na publicação de hoje, quero apresentar o belo poema composto pelo João Lucas Fernandes Alves apresentado à Escola Parque Anísio Teixeira (DF).   Atualmente com 19 anos de idade, o jovem é estudante de Medicina Veterinária pela Universidade de Brasília. Como futuro profissional da área,  João pretende trabalhar no interior baiano, região onde os familiares paternos vivem. 

Apreciemos, então, esse belo poema.

Sim, eu sou da quebrada
Da quebrada do meu sertão,
Onde o sol esconde a lua
E a lua vira rojão 
Sons de maracatu ao vento
Marcando tempo ao baião.

Sim, eu sou da quebrada 
Mas da quebrada do outro lado,
Marcada por fitas coloridas
Do Cavalo Marinho, do Reisado
Lembranças de outras vidas
No som da viola do amado.

Sim, eu sou da quebrada 
Mas da quebrada do outro mar;
Ruralizada no Bumba meu Boi
E nos navegantes de Iemanjá,
Que é e sempre foi
O retrato do beira mar.

Sim, eu sou da quebrada 
Mas da quebrada dos violeiros;
Contadores experientes 
De seus versos certeiros, 
Que navegam em suas mentes
E nos grotões sertanejos.

Sim, eu sou da quebrada 
Mas da quebrada dos tabuleiros,
Que ecoa em bom som
A melodia dos sanfoneiros,
Enamorando o fino tom
Do grosso dançar forrozeiro.

Sim, eu sou da quebrada 
Mas da quebrada do gibão,
Couro forte e grosseiro 
Dum maioral do sertão;
Um europeu guerreiro 
Montado no alazão.

Sim, eu sou da quebrada 
Mas da quebrada cultural,
Presentes lá no ceio
Da grande Torre Digital,
No Cantador e Seu Estrelo
Estão lá vivas, afinal.

Sim, eu sou da quebrada 
Mas da quebrada sem fim,
Das festas do padroeiro 
Ou da lavagem do Bonfim
Fico mesmo até cabreiro 
Quando estão longe de mim.

Sim, eu sou da quebrada 
Mas da quebrada de guerrilheiros,
Dos tristes Capitães do Mato
Há volantes e cangaceiros,
Das vítimas de ferro aço 
E da fome e seus companheiros.

Mas sim, eu sou da quebrada 
Mas da quebrada de Ser Tão,
Ser vivo nas emboladas
Tão eternas neste rincão, 
Ser vaqueiro nas toadas 
Tão culturais no meu chão.

Sim, eu sou da quebrada 
E por ela eu não me calo,
Lhe canto em poesias
Em veste de rico trapo,
Embarco nas maresias
De doce gosto amargo.

João Lucas Fernandes Alves

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Entrelinhas


Ao longo da semana anterior, deparei-me com a seguinte indagação: Se Davi foi livre dos seus temores quando ele buscou ao Senhor (Salmos 34: 4 - ARA), por que os meus ainda persistem? No mesmo poema, mais à frente, o salmista sugere que experimentemos da bondade, da proteção e do livramento do Altíssimo quando ele afirma categoricamente: "Provai e vede que o Senhor é bom; bem-aventurado o homem que nele se refugia" (Salmos 34: 8 ARA). Ainda mais à frente, o salmista também sugere que as aflições  e os livramentos fazem parte da nossa caminhada ao asseverar: "Muitas são as aflições do justo, mas o Senhor de todas o livra" (Salmos 34: 19 ARA). 

Uma nova semana teve início quando, em conversa com a minha amada sobre minhas indagações, surgiu o texto bíblico utilizado em um culto há uns meses, na cidade de Guarapari-ES. Era uma terça-feira e houve um culto voltado para o público feminino. Na véspera, havíamos participado da reunião noturna daquela igreja quando a programação foi anunciada. Como a igreja era perto de onde estávamos hospedados e minha esposa desejou participar, fomos.

Naquele culto para as mulheres, éramos poucos homens presentes. Ao chegarmos lá, perguntei à equipe de recepção se eu poderia entrar. Permissão concedida, participei daquela reunião. Entre outras reflexões bíblicas, cânticos congregacionais e informações sobre o trabalho feminino da Convenção Batista do Espírito Santo naquela cidade,  a pregadora se valeu do texto bíblico abaixo para a reflexão principal.

Hebreus 4: 14 a 16 ARA

¹⁴ Tendo, pois, a Jesus, o Filho de Deus, como grande sumo sacerdote que penetrou os céus, conservemos firmes a nossa confissão.

¹⁵ Porque não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; antes, foi ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado.

¹⁶ Acheguemo-nos, portanto, confiadamente, junto ao trono da graça, a fim de recebermos misericórdia e acharmos graça para socorro em ocasião oportuna.

Voltando ao presente, fiz uma busca nas minhas anotações a partir do que foi ensinado naquela noite. Entretanto, mesmo que não as possuísse, a simples releitura dos versículos acima seria (como foi) suficiente para aquietar meu coração em relação à indagação inicial, mas um aquietar do tipo puxão de orelhas. Tenho vergonha de desenvolver os versos acima, pois eles são muito óbvios em relação ao que me faltou crer com o coração. 

É mais ou menos o que a professora de Educação Musical do antigo ginasial fez comigo. Seu nome era Maria Lúcia.  Em uma aula, foi pedido aos alunos que se sentassem em duplas. Uma música instrumental seria executada. Deveríamos ouvi-la com atenção e, em seguida, um desenho deveria ser feito. Atividade cumprida. Atividade entregue pelo meu parceiro de dupla à professora. Minutos depois, fui chamado à sua mesa. Ela me pediu para ler mentalmente o que estava na folha em que o desenho deveria ter sido feito. Não me recordo literalmente de cada palavra, mas o que meu colega de dupla escrevera era mais ou menos assim: "Por causa do meu colega do lado, não pude me concentrar para elaborar o desenho". Lidas aquelas palavras, a professora me perguntou se eu havia compreendido o recado, no que lhe respondi afirmativamente. Por fim, ela mandou-me sentar.

Cristo repetiu, cinquenta anos depois, a mesma pergunta feita pela minha ex-professora Maria Lúcia:  "Você compreendeu o recado?" 

Fernando Fernandes





 


quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Deleite

 


Gostaria de discorrer um pouco sobre os dois primeiros versículos do Salmo 21, conforme a versão Almeida, Revista e Atualizada.

¹ Na tua força, Senhor, o rei se alegra! E como exulta com a tua salvação!

² Satisfizeste-lhe o desejo do coração e não lhe negaste as súplicas dos seus lábios.

O poema, como um todo, apresenta uma voz em primeira pessoa que se dirige a Deus sobre uma terceira pessoa. No trecho em destaque, é revelada a alegria da voz poética pela benção concedida ao rei, conforme o desejo do coração deste. O pronome tua e a flexões verbais satisfizeste e não negaste fazem referência a Deus (com quem se fala); os pronomes lhe, seus e as flexões verbais se alegra e exulta fazem referência ao rei (de quem se fala). Para efeito de raciocínio, suponhamos que o salmista tenha utilizado o recurso da falsa modéstia, no sentido de que ele estaria falando do seu próprio sentimento de satisfação por ter recebido de Deus conforme seu coração desejou. 

Ouso afirmar que todos nós, em algum momento da vida, fomos aquinhoados com alguma coisa conforme planejado, desejado, sonhado. Lembro-me de um caminhão de brinquedo, desses que transportam automóveis. Vi-o em uma loja e desejei-o. Tempos depois, meu pai me deu o dinheiro e pude comprá-lo. A aprovação em um concurso ligado à carreira militar foi outra bênção de Deus na minha vida. Meu casamento, idem. Todavia, essas realizações não se deram como que por encanto. Houve um tempo entre o sonho  e a concretização. No caso do brinquedo e no caso do concurso, foram poucos meses. Já o casamento, como demorou. Até pensava que eu usava repelente. Muitas amigas, poucas confidentes, zero namorada. Quando namorava,... Deus poderia ter negado meu anseio porque, quando oramos, pedimos que a vontade do Senhor seja feita, assim na terra como no céu. Entretanto, o casamento chegou e se consolidou. Nos três exemplos,  Deus não negou as súplicas dos meus lábios conforme o meu desejo. 

Retomando a bênção do casamento, reconheço a importância do tempo como fator de aprendizado. Foram nãos que se converteram em espera e a espera que me fez entender o porquê daquelas negativas. Na verdade, não existe uma relação entre pedido e recebimento tendo o tempo como parâmetro.

Infelizmente, parece que ainda tomamos leite. Desde sempre, somos infiéis mesmo abençoados. Assim aconteceu na caminhada do povo de Israel antes e após Moisés e Josué. O período dos juízes exemplifica o ciclo fidelidade / infidelidade / aperto divino / livramento. É receber o alívio da parte de Deus e ter nova crise de amnésia espiritual. Nós não amadurecemos, nós não progredimos, nós não nos desenvolvemos na mesma proporção em que somos agraciados por Deus a partir das petições que fazemos. É sempre o mesmo cardápio lácteo com pouquíssimas variações. Carne que é bom, nada.

Há muito para aprimorar, progredir e evoluir na caminhada cristã. Por mais boa vontade que tenhamos, por mais oração que façamos e por mais que meditemos na Palavra,  sempre derrapamos na nossa humanidade. Ainda bem que as misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos. 

Fernando Fernandes