quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Fluidez





Há uns dez anos, como currículo obrigatório para os alunos do primeiro ano do Ensino Médio, deparei-me com este poema camoniano no livro didático. Mais do que teorizar sobre a estrutura do soneto, análise de métrica e de rima, optei por refletir sobre a mutabilidade das coisas. A pequena conversa abaixo foi publicada no blog que utilizava com a finalidade de apoio didático aos estudantes daquele momento.


Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o Mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem (se algum houve), as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria,
e, enfim, converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto,
que não se muda já como soía.

Há quinhentos anos, Camões (1525-1580 )já afirmara que todo o Mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades a partir da constatação de que os tempos, as vontades, o ser e a confiança estão sempre em processo de mudança. Por outro lado, Zygmunt Bauman (1925-2017) traz à lume a ideia de sociedade líquida, na qual tudo é volátil, amoldável, flexível, temporário.

Detalhemos melhor cada afirmação.

No poema camoniano, ele parte das mudanças que ocorrem na natureza e nele mesmo como sustentação da sua tese. Para ele, tudo se modifica, seja para a melhor (na natureza) ou para a pior (sua própria vida). As novas qualidades não são sinônimo de aperfeiçoamento, obrigatoriamente, conforme os versos  Continuamente vemos novidades / diferentes em tudo da esperança.

Para o sociólogo contemporâneo polonês e radicado na Grã-Bretanha, a falta de investimentos a longo prazo nos relacionamentos, a necessidade que temos de comprar aquilo que, efetivamente, não nos falta e a constatação de que tudo é descartável são exemplos da liquidez social em que vivemos. Não há mais raízes, tradições. Há uma excessiva busca pelo novo, assim como a água assume a forma de qualquer coisa que a contém.

Camões revela que a necessidade de mudança é inerente ao ser humano. Conforme ganhamos idade e experiência de vida, é normal que nossos valores se modifiquem. As relações familiares, assim como as escolares, profissionais, aquelas que envolvem namoro, noivado e casamento e outras relações, todas elas permitem troca de experiências a ponto de sermos um pouco de cada colega ou familiar que passou pela nossa vida, assim como eles são um pouco de nós. Daí as mudanças.

Na sua leitura do mundo contemporâneo, Bauman revela a patologia causada pela mídia e pelo consumo, pilares da pós-modernidade. Por exemplo, o governo brasileiro reduziu o Imposto sobre Produtos Industrializados dos automóveis zero-quilômetro para aumentar vendas. Por outro lado, fora divulgado que o funcionalismo federal não receberia qualquer reajuste de salário naquele ano. Os bancos e financeiras alardeiam redução de juros para incrementar a quantidade de dinheiro em circulação por meio do financiamento de bens e produtos, porém todos sabemos que boa parte da população brasileira está comprometida com prestações. A coisa está tão liquefeita que você tem a posse de um carro que não lhe pertence ou do celular da maçã que ainda pertence à operadora que lhe vendeu e, antes que você consiga quitar, se quitar, todas as prestações, já estará trocando por outro similar só porque a lanterna traseira ficou maior ou porque a maçã, agora, está mordida dos dois lados. Nessa troca, você ganha o prazer de estar atualizado em relação ao produto que possuía; contudo, perde dinheiro e ganha mais prestações até alguém seduzir você novamente. Nas relações que envolvem namoro, noivado e casamento e valores familiares, temos o hábito de definir como ética essa fluidez. Basta um exercício de raciocínio. Com certeza, exemplos virão à mente.

Se Camões afirmava que as mudanças são inerentes ao ser humano e se Bauman constata que há busca excessiva por mudanças, como conciliar a necessidade que há em nós em buscar o novo sem entrarmos na fluidez social?

Ainda busco respostas. Você as tem?


Fernando Fernandes
Há outras publicações autorais antigas (2011 a 2022) como essa no blog pherrocha.blogspot.com 

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Reflexos


A experiência vivida  há mais de dez anos tinha tudo para ser ficção. Mas não foi.

Havia encerrado e quitado mais um almoço em um dos quatro self-service restaurants, próximos ao meu local de trabalho. Como dispunha de tempo livre, optei em assistir parte do noticiário veiculado pela televisão ali mesmo.

Enquanto o apresentador revelava cada uma das notícias, pensava na difícil situação dos passageiros da região de Sobradinho e Planaltina, a ineficiência da máquina pública em dar uma solução definitiva ao caos no transporte público e se eu degustaria uma coca-cola.

Novas notícias foram veiculadas referentes a velhos problemas. Pessoas que estacionam em local não permitido; que matam esposas ou ex-esposas; que teimam em deixar bem óbvio a inércia do estado quando se trata do bem-estar do cidadão. Sinceramente, não sei o porquê de eu assistir telejornais. São todos iguais. Só há a perpetuação da miséria humana. Mas havia algo novo. A coca-cola ao meu lado.

O estado de lerdeza no qual me encontrava foi interrompido ao observar duas crianças sentadas à mesa ao meu lado. Nos seus pratos, absolutamente nada de legumes ou hortaliças quer sejam cruas ou cozidas.

Continuei degustando minha coca-cola e vi a mãe retornar ao balcão, agora para se servir. Ela se serviria dos alimentos não escolhidos pelos filhos?

Minha coca-cola acabou e a preguiça em retornar ao trabalho se manteve. Mas a expectativa do suspense em relação ao cardápio da mãe aumentou. Estava perto o suficiente do balcão para contemplar o resultado da sua avaliação após ela checar, uma a uma, as opções existentes no balcão de alimentos.

Que pena! Ela seguiu o padrão de escolha das crianças ou reforçou para os pequenos o exemplo a ser seguido?  

Fiquei sem resposta. 

Nada de alface, beterraba, cenoura, pepino, repolho, tomate, vagem e outros correlatos. Pelas quantidades do que havia em cada um dos três pratos, nada excepcional. Apenas o que não se encaixa em verduras e legumes. Como eu, as crianças pediram coca-cola para a atendente.

Desculpe-me. Havia batatas fritas nos seus pratos.

Levantei-me. Dirigi-me ao caixa para pagar o refrigerante. Dei uma nota de cinco reais para cobrar dois reais e oitenta centavos. Novo susto. A jovem, sem titubear, lançou mão da maquineta para calcular meu troco.

Recebi a demasia e deixei o restaurante já pensando no meu próximo almoço. Onde seria? Serviriam fritas? Haveria nova guerra interior em relação à coquinha?

Só uma certeza. No meu prato, nada de carne e muito legume com verduras. Inclusive batatas fritas.


Fernando Fernandes
Há outras publicações autorais antigas (2011 a 2022) como essa no blog pherrocha.blogspot.com